Cena de Cinema (6)
Simplesmente um dos melhores momentos femininos em todo o cinema, a sequência em que Judy Garland canta The Man That Got Away já seria suficiente para lhe dar o Oscar – que acabou em mãos erradas (Grace Kelly com sua atuação mediana em Amar é Sofrer). Para os que já assistiram ao filme Nasce Uma Estrela, minhas congratulações; àqueles que não tiveram o prazer, não deixem de conferir. Infelizmente o DVD está fora do catálogo da Warner (um pecado sem precedentes), mas pode ser encontrado em algumas videolocadoras, que podemos considerar, no mínimo, sortudas.
The night is bitter / The stars have lost their glitter / The winds grow colder / And suddenly you’re older / And all because / Of the man / That got away / No more his eager call / The writing’s on the wall / The dreams you dreamed have all / Gone astray /The man that won you / Has run off and undone you / That great beginning / Has seen its final inning / Don’t know what happened / It’s all a crazy game /No more that all time thrill / For you’ve been through the mill / And never a new love will / Be the same / Good riddance, good-bye / Every trick of his you’re on to / But fools will be fools / And where’s he gone to / The road gets rougher /It’s lonelier and tougher / With hope you burn up / Tomorrow he will turn up / There’s just no let up /The live long night and day /Ever since this world began / There is nothing sadder than /A one-man woman /Looking for the man / That got away /The man that got away.
Outras cenas: Segundas Intenções; Crash – No Limite; O Iluminado; A Doce Vida; A Um Passo da Eternidade.
Os Inocentes

Não sei quanto a quem lê, mas uma das coisas que mais provocam arrepios em quem vos fala é quando inserem algo aparentemente inocente numa sequência notadamente sinistra. Explico: a cena inicial de Os Inocentes, obra-prima do cineasta Jack Clayton, nos revela a imagem atormentada de Mrs. Giddens, uma jovem governanta, orando pela alma de duas crianças em perigo. Como se já não bastasse, Clayton ainda trabalha num ambiente escuro – no qual vislumbramos apenas a silhueta da mulher (vivida por Deborah Kerr) e a de um crucifixo. Para não dizer que os arrepios param por aí, há ainda a voz de uma menina, que perdida na escuridão, canta uma música infantil e melancólica.
Após o prenúncio desta tragédia, somos lançados dentro de uma sala, na qual Mrs. Giddens está sendo contratada pelo aristocrata (e tio de duas crianças), Mr. Miles. É uma cena bastante explicativa, na qual tomamos ciência de seu comportamento imprudente: sentindo-se incapaz de assumir responsabilidades sobre os sobrinhos órfãos, encerra-os numa linda casa de campo, sob o cuidado absoluto de governantas. O único problema (ao menos o mais explícito) é que a última, Mrs. Jessel, morreu em circunstâncias misteriosas. Inicialmente atônita pelas informações que recebe, Mrs. Giddens acaba aceitando a função, partindo para a mansão campestre em poucos dias.
Jack Clayton cria um ambiente fabulístico quando sua câmera nos insere nos jardins do casarão vitoriano. As vastas árvores, que circundam um imenso e profundo lago, nos remetem à uma espécie de sonho – sensação que vai parecer cada vez mais frequente ao longo da projeção. Mas há um leve contraste com a inabalável calmaria: Mrs. Giddens percebe uma voz, gutural mas delicada, chamando por Flora (Pamela Franklin), um de seus futuros pupilos - numa cena que termina com o aparecimento da própria menina, negando que qualquer pessoa tenha chamado por seu nome. A impressão que o filme nos passa, a partir de então (e com profunda competência) é a de que as crianças são perfeitamente normais. O que abala esta certeza (em Mrs. Giddens e no público) é a expulsão de Miles, o garoto, da escola. Uma carta informa que o colégio nega-se a aceitar seu comportamento – mas nem mesmo a governanta sabe como um menino tão educado e doce poderia irritar professores a ponto de uma expulsão.
As crianças são a alma desta película, não exatamente por sua graça (já que ambas são encantadoras), mas por seu talento. Talvez a tirada de mestre em Os Inocentes tenha sido a escalação de dois atores-mirins tão expressivos e inteligentes. Numa cena especialíssima, na qual ambos fantasiam-se de rei e rainha, um monólogo é proferido pelo garoto (o ator Martin Stephens), e causa calafrios. Ele declama um poema que tem forte paralelo com a morte e a ressureição, num ponto do filme em que Mrs. Giddens já tem a certeza da presença de fantasmas na propriedade (e pior, de que estão tentando possuir as crianças); o menino termina fitando a governanta, os olhos profundos e impessoais, a mão segurando um candelabro que brilha na escuridão da sala. Jack Clayton também é um dos grandes responsáveis por tais momentos de horror - a partir do instante em que opta por cenários escuros e enquadramentos distantes, aumentando a sensação de pânico dos espectadores, que se sentem absorvidos pelo casarão. E mesmo as cenas passadas durante o dia (que são raras) têm uma ambientação quase gótica; a câmera do diretor não abandona, a nenhum minuto, elementos assustadores como o lago (imenso e lodoso), as estátuas antigas e a torre (ornadas por imagens de gárgulas).
Além destas citadas, há outra coleção de cenas memoráveis: Mrs. Giddens transitando pela mansão com uma vela nas mãos, enquanto ouve barulhos medonhos vindo dos quartos; o fascínio que a música Willow Waly, que domina o filme, provoca em todos os personagens quando toca numa caixa de música; a primeira manifestação de fantasmas, na qual um rosto tenebroso surge detrás da janela, assustando a governanta; e, óbvio, o desfecho tão comentado, que nos dá uma perspectiva pessimista e profundamente estarrecedora. Apesar de adaptado de uma obra que jamais declarou o próprio gênero (já que no conto de Henry James, A Volta do Parafuso, não se sabe se os fantasmas são reais ou delírios da governanta, uma mulher reprimida sexualmente pela sociedade da época). Jack Clayton conseguiu transformar Os Inocentes numa experiência inesquecível para os amantes do bom cinema de horror: a atmosfera de medo é construída de maneira gradativa, de modo que nada seja gratuito ou forçado. Detalhe: o excelente roteiro é assinado por William Archibald e (!) Truman Capote.
The Innocents – ING – 1961 – Direção: Jack Clayton – Elenco: Deborah Kerr, Martin Stephens, Pamela Franklin – 110 min – Gênero: Terror
NOTA: 9,0 ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
Cena de Cinema (5)
Para quem já ouviu falar sobre o clássico A Um Passo da Eternidade, dirigido por Fred Zinneman, um momento recorrente às mentes de qualquer cinéfilo é aquele em que Burt Lancaster e Deborah Kerr se beijam numa praia do Havaí. Esta cena é considerada um verdadeiro tesouro da sétima arte (apesar de relativamente curta). Porém, o fato é o seguinte: A Um Passo da Eternidade consegue ir muito além desta belíssima passagem. É um dos colossos mais inabaláveis da história de Hollywood, uma obra-prima indiscutível que precisa ser apreciada por qualquer cinéfilo.
Outras cenas: Segundas Intenções; Crash – No Limite; O Iluminado; A Doce Vida.
A Cor Púrpura

Quando Quincy Jones decidiu transformar em filme o best-seller e vencedor do Prêmio Pulitzer, A Cor Púrpura, de Alice Walker, certamente não imaginava Steven Spielberg como o diretor ideal. Ele parecia o único branco entre uma equipe majoritariamente negra, mas nem por isso deixou de captar com delicadeza e competência um dos painéis mais ambiciosos sobre a influência da cultura negra sobre os EUA do século XX. Spielberg colheu algumas críticas (de um público acostumado a vê-lo em blockbusters), mas recebeu reconhecimento do Oscar com uma indicação ao prêmio de melhor direção do ano de 1985.
Algo que alimenta a curiosidade de muitos amantes do longa é o fato dele ter recebido 11 indicações - incluindo Melhor Filme – e sair de mãos vazias da cerimônia. Num ano dominado pelo também excepcional Entre Dois Amores, A Cor Púrpura não alçou maiores voos. Contando a história da menina Celie, uma negra que não é exatamente bonita, mas muito inteligente, o filme narra toda sua saga – desde os abusos sexuais que sofria do pai alcóolatra (e que a engravidou duas vezes, livrando-se das crianças logo em seguida) até o momento em que é obrigada a se casar com o bruto Mister (vivido por um ótimo Danny Glover). Celie é uma garota acostumada com perdas de todos os sentidos. Como se não bastasse ter filhos do próprio pai - e ainda vê-los sendo entregues à adoção -, após o matrimônio ela é forçada a se separar de sua irmã Nettie, uma garota mais bonita, porém igualmente inteligente e íntegra. Com o desenrolar dos anos, Celie vai convivendo com a saudade de seus familiares perdidos, enquanto tenta lidar com as agressões do esposo e com uma série de outros personagens que provocam drásticas mudanças em seu modo de encarar a vida.
A fase adulta de Celie é a parte mais fascinante de A Cor Púrpura, especialmente pela atuação formidável de Whoopi Goldberg, aqui em seu papel de estreia. Ela compõe a personagem de maneira exemplar, atentando para detalhes que fazem toda a diferença – como tapar o sorriso com as mãos a cada momento que se sente feliz ou mesmo envergonhada. Este trejeito é tão característico que por várias vezes ansiamos pelo seu sorriso. E são nas sequências em que Goldberg divide a tela com Shug Avery (vivida por Margareth Avery) que mais se tem o prazer do imenso e iluminado sorriso de Celie – um artigo de luxo dentro do filme, mas que ao ser utilizado simplesmente nos encanta. É difícil imaginar que uma mulher tão sofrida ainda encontra motivos para sorrir, mas a mensagem que Menno Meijes (o roteirista) quer passar é a de que “o paraíso é bem maior do que qualquer provação”. Não por acaso estas palavras são proferidas pela própria Celie a certa altura da película, mais exatamente quando sua nora, Sophia (interpretada por Oprah Winfrey) vem reclamar que apanhou do esposo, o obsequioso e vacilante Harpo (Willard E. Pugh). O roteirista e todas as atrizes citadas foram indicados ao Oscar, mas nenhum deles recebeu o prêmio - quando, na verdade, questionamos se a adaptação do livro de Alice Walker foi realmente inferior à da obra autobiográfica de Karen Blixen, A Fazenda Africana, que serviu de material para o roteiro de Entre Dois Amores. Questiona-se bastante, também, a derrota de Goldberg para Geraldine Page (em O Regresso para Bountifull), e principalmente, a de Oprah Winfrey (que mais tarde se tornaria uma das maiores apresentadoras da TV americana) para Anjelica Huston (em A Honra do Poderoso Prizzi).
Claro, o Oscar nem sempre é uma verdade absoluta. Talvez A Cor Púrpura merecesse sair com algum prêmio. Talvez esta derrota massiva, em todas as 11 categorias, tenha apenas reforçado a grande injustiça que muitos consideram ter sido cometida pelo Oscar. O fato é que o primeiro filme ”sério” de Steven Spielberg é uma fábula inesquecível. Todos os elementos dramáticos estão ali, mas o tom é por vezes jocoso (e este equilíbrio sem dúvida serviu para que o filme conquistasse tantos admiradores). Enfim, independente de qualquer outra comparação, A Cor Púrpura merece ser visto. Raras vezes o cinema abordou a raça negra com tanta intensidade e respeito – e aqui isto acontece em doses superlativas.
The Color Purple – EUA – 1985 – Direção: Steven Spielberg – Elenco: Whoopi Goldberg, Danny Glover, Oprah Winfrey – 154 min – Gênero: Drama
NOTA: 9,0 ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
Rede de Intrigas (1976) em DVD!


Cinéfilos brasileiros, alegrai-vos! A 2001 Video, em parceria com a Fox Entertainment acaba de trazer ao mercado brasileiro um dos filmes mais aguardados pela geração DVD, aposentando de vez as velhas cópias em VHS que já eram artigos de colecionador. Infelizmente a versão comercializada pela 2001 é simples, sem os adicionais que estão disponíveis na versão dupla lançada em 2006 nos EUA. Mas isso não tira a importância deste lançamento, que finalmente trará ao público um dos melhores filmes da História de Hollywood, dirigido por Sidney Lumet e vencedor dos Oscar de ator (póstumo, para Peter Finch), atriz (Faye Dunaway), atriz coadjuvante (Beatrice Straight) e roteiro (Paddy Chayefski). O preço sugerido é R$ 29,90.
Detalhe importante: o lançamento é exclusivo da 2001 Video, só podendo ser adquirido nas lojas físicas da empresa, e claro, na loja virtual. A seguir, o link para adquirir o produto. Não perca tempo!