No Calor da Noite
Em 1968, a Academia de Hollywood anunciava que o melhor filme daquele ano era a produção No Calor da Noite, dirigido pelo competente Norman Jewinson e estrelado por dois atores famosos, Rod Steiger e Sidney Poitier. Hoje, quarenta anos depois, pude assistí-lo pela primeira vez. A impressão que tive foi positiva, mas definitivamente não é o tipo de filme que se enquadra como o melhor de seu ano. Naquela edição tínhamos o ótimo Adivinhe quem Vem Para Jantar e o extraordinário A Primeira Noite de Um Homem na disputa.
Ao viajar para o sul do país, mais precisamente Mississipi, Virgil Tibbs (Poitier), um detetive negro do departamento de homicídios da Filadélfia, acaba envolvido involuntariamente na investigação do assassinato de um poderoso empresário local. Primeiramente, Tibbs havia sido acusado do crime, mas sanado o mal entendido, ele é convidado para ajudar na solução do caso. Encontrar o assassino torna-se particularmente difícil, pois seus esforços são boicotados pelo preconceito de diversos moradores da cidade, inclusive do delegado local (Steiger).
O roteiro de Stirlling Siliphant, adaptado do romance homônimo de John Ball, traça dois paralelos bastante interessantes: de um lado, a experiência e capacidade de um detetive, do outro, o preconceito que o mesmo enfrenta por sua raça. Estão no sul dos Estados Unidos, conhecido pela violência contra os negros, especialmente após a Guerra Civil. O preconceito passa de geração em geração, e se pronuncia de maneira quase selvagem quando Virgil decide permanecer por mais tempo na cidade. Dessa maneira, o assassinato, por vezes, perde o foco principal, e por outras, assume as rédeas da história. Ao melhor estilo de Agatha Christie, somos apresentados a novas evidências, na maioria deduzidas ou descobertas pelo detetive negro. A atmosfera que paira pelas cenas de investigação é delirante, e consegue segurar a atenção do espectador por duas horas de duração. A atuação de Sidney Poitier é bastante verossímil, embora ele exagere em algumas passagens, abusando de um festival de expressões de espanto ou indignação. Já Rod Steiger - premiado não sei como pelo Oscar como o melhor ator do ano por este trabalho – extrapola seguidamente e acaba perdendo a mão. Cenas de seu personagem com o assistente local, no início do filme, já demonstram isto. Porém isto jamais chega a estragar o que o filme têm de melhor, que é seu roteiro.
Quero esclarecer que o filme não é ruim, e nem chega perto disso. Mas a simplicidade dos fatos, isto é, uma banal investigação de polícia, apesar de eficiente, não conseguiu sobrepor temáticas mais atraentes e geradoras de discussão – como a entrada de um negro na sociedade preconceituosa, em Adivinhe Quem Vem Para Jantar e a iniciação sexual de um jovem acadêmico em A Primeira Noite de Um Homem. Se, talvez, o roteiro resolvesse se fixar na intolerância racial e deixasse o crime como segundo plano, talvez se equivalesse aos citados anteriormente. Como optaram pelo desenvolvimento mais detalhado do crime, aviso que para aqueles mais exigentes, como eu, o desfecho da história pode ser muito frustrante… Enfim, é um filme agradável e bem interessante, apesar do final anticlímax - e o uso da fotografia e da edição foram bastante acertados. Mas ainda assim, No Calor da Noite carrega o título de mais um, dentre tantos outros, injustamente vencedor do principal Oscar em seu ano de lançamento.
NOTA: 7,0 ![]()
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Kamila disse,
Julho 6, 2008 às 8:18 pm
Esse filme é marcante para mim, por causa daquela cena clássica em que o Sidney Poitier fala: “My name is Mr. Tibbs”, que passa sempre no Oscar e em outros shows de premiação.
Falando particularmente de “No Calor da Noite”: acho um filme muito bem feito, mas a impressão que tenho foi a de que a obra envelheceu.
Tommy Beresford disse,
Julho 7, 2008 às 12:46 am
A propósito de Agatha Christie e cinema, convido você e a todos para conhecerem dois blogs recém-lançados sobre a Dama do Crime e sobre a magia da sala escura:
A Casa Torta: O Mundo de Agatha Christie
http://acasatorta.wordpress.com
Cinema é Magia
http://cinemagia.wordpress.com
Um abraço, votos de uma ótima semana,
Tommy Beresford
Vinícius P. disse,
Julho 7, 2008 às 1:54 am
Ainda não vi, mas realmente não sei como ganhou o Oscar naquele ano – prefiro bem mais “Adivinhe Quem Vem Para Jantar” e especialmente “A Primeira Noite de um Homem” (extraordinário mesmo). De qualquer forma espero ver em breve…
Isabela disse,
Julho 7, 2008 às 5:17 am
Eu tenho o orgulho de dizer que tenho esse filme na minha coleção. É um grande filme, mas se formos olhar e compara-los com os filmes de hoje em dia, pode parecer apenas mais um, mas na verdade é muito mais. É o inicio de um genero, com uma dupla de grandes atores e uma grande direção.
Roberto Queiroz disse,
Julho 7, 2008 às 6:35 pm
Eu gostei. Não que merecesse o Oscar (aí já é exagero). Mas vale pelas atuações e pela música do Ray Charles que sempre é um alento. No mais, sabe como é a academia! Quando eles cismam com um assunto, já viu. No caso aqui, foi o racismo (meio que se repetiu isso recentemente com o Crash, do Paul Haggis).
Discutir a mídia agora? Acesse
http://robertoqueiroz.wordpress.com
Pedro Henrique disse,
Julho 7, 2008 às 10:55 pm
Falou em Agatha Christie falou em coisa boa (os livros). Ainda não conferi No Calor da Noite, conheço o filme mas nunca tive vontade de assistir. Agora, porém, ve-lo-ei quando puder.
Abraço!
Wally disse,
Julho 8, 2008 às 2:12 am
Eu não vi esse ainda. A melhor cliente da locadora onde trabalho possui um gosto demasiadamente parecido com o meu e disse que não gostou muito desse filme. Não sei, muitos dizem mesmo que ele foi superestimado. Fiquei intrigado em assistir.
Ciao!
Sérgio Déda disse,
Julho 8, 2008 às 11:19 pm
Tenho muita vontade de assistir este filme, mas acho difícil ser melhor do A Primeira Noite de Um Homem.. um dos melhores filmes de todos os tempos..
vlws
Ibertson disse,
Julho 9, 2008 às 3:48 am
Cara, ainda não assisti a esse filme, mas queria muito assistir.
Filmes sobre preconceitos raciais me interessam, vide Mississipi em Chamas.
Weiner disse,
Julho 12, 2008 às 12:43 am
KAMILA, concordo com o fato de a produção ter envelhecido. Mas o que me deu mais raiva foi ela ter tirado o Oscar de “A Primeira Noite de Um Homem”. Portanto, antes mesmo do filme começar, eu já pensava: “é melhor que você seja estupendo, No calor da Noite…” Como não foi, me frustrei muito. Acho, até, que 7,0 é uma nota bem alta… Abraço!
TOMMY, obrigado pelo convite! Vou visitar os links em breve! Abraço!
VINÍCIUS, garanto que ao vê-lo, suas colocações passarão a ter todo o fundamento do mundo. Abraço!
ISABELA, na verdade, se analisado por este prisma, o filme é mesmo notável. Ser pioneiro traz um grande peso, e portanto devemos respeitá-lo. Mas achei a temática tão pobre se comparada aos outros concorrentes do Oscar 1967! abraço!
ROBERTO, a música do Ray Charles é mesmo maravilhosa. Mas, quanto à Crash, não achei injusto ter ganhado, como achei este. O filme de Haggis guardou belas surpresas e momentos de pura emoção e reflexão. “No Calor da Noite” é tão simplório… Abraço!
PEDRO, se você gosta de crimes e suas soluções, assista. Mas lhe aviso que eu detestei o final – puro anticlímax. Abraço!
WALLY, é SUPERESTIMADO mesmo. O Oscar adora fazer este tipo de gracinha, mas ao menos lhe garanto que, se assitido sem expectativas e comparações, até que pode ser que você goste. Mas, se observar que ele tirou o Oscar de “The Graduate”, vai detestar. Abraço!
SÉRGIO, “The Graduate” é mesmo um dos melhores filmes de todos os tempos. Abraço!
IBERTSON, valeu pela dica de “Missisipi em Chamas”, vou procurar pelas videolocadoras. Abraço!