
O diretor Billie August (de Pelle, o Conquistador, filme este vencedor do Oscar de produção estrangeira em 1988), na tentativa de levar às telas a complexa epopéia da escritora chilena Isabel Allende, produziu uma obra de grande beleza visual, mas que peca principalmente na excessiva duração e no roteiro descompassado, que por sinal, é também assinado pelo diretor dinamarquês.
Mostrando o cotidiano da família Trueba, de Santiago, a história têm início quando o impulsivo Esteban Trueba (interpretado por Jeremy Irons em um dos melhores papéis de sua carreira) compra uma imensa fazenda no interior de seu país, e, dentro de alguns anos, transforma-a num dos latifúndios mais produtivos do Chile. Para tanto, ele explora os seus trabalhadores excessivamente, chegando ao nível da escravidão. Mas é pela mente de um dos filhos dos escravizados (vivido por um péssimo Antonio Banderas), que surge a idéia de criar uma rebelião. A esta altura, ele já está casado com a sensitiva Clara (a sempre competente Meryl Streep), uma mulher doce porém problemática, que desperta na irmã do protagonista (Glenn Close) uma súbita e forte simpatia, que a Esteban representa lesbinianismo. As intrigas familiares partem daí, até que o destino faz com que a filha do casal (Winona Ryder) se apaixone pelo personagem de Banderas e lute ao seu lado durante a Revolução de 1970, que culmina na morte do presidente Salvador Allende (sim, ele é avô da escritora Isabel Allende).
Um longo panorama, que se estende de 1920 e acaba em 1970, é delineado em pouco mais de duas horas e meia de projeção. Pode parecer pouco para contar um período de 50 anos, mas na verdade é tempo desperdiçado. Há um sem-número de passagens absolutamente desnecessárias, que mais parecem estar ali no intuito de que o filme atinja longa duração. Outra coisa bastante estranha é o título que a produção recebeu de alguns, que o chamam de híbrido de …E o Vento Levou e Dr. Jivago. No meu entendimento, falta uma série de coisas que os dois outros filmes possuem. Na produção extraordinária de David. O. Selznick, … E o Vento Levou, existe uma edição primorosa, que consegue ordenar o decorrer do tempo com clareza suficiente – e os 220 mniutos passam quase imperceptivelmente. Neste, a edição de Janus Billeskov Jensen é tão lenta e maçante que provoca sono (cenas intermináveis, com diálogos excessivos e pouco explicativos – ponto a menos para o roteiro de August). De Dr. Jivago, ele herdou tudo de aborrecido e inexplicável, mas perdeu em fotografia (o trabalho de Jörgen Persson é prejudicado pela péssima qualidade da imagem do DVD) e trilha sonora (Hans Zimmer não consegue emocionar o espectador, como conseguiu Maurice Jarre).
Portanto, analisando apenas o contexto épico, pode-se dizer que A Casa dos Espíritos quase chega a ser uma mistura dos dois filmes citados. Reúne as características de uma epopéia, principalmente por contar a saga de uma família; mas cancela boa parte do valor histórico ao utilizar-se abusivamente dos clichês e dispensar pouca (ou quase nenhuma) atenção à cultura e tradições do povo chileno.
NOTA: 5,5 ![]()
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