W.

Abril 30, 2009 at 8:36 am (Críticas, Filmes: Oliver Stone)

O diretor Oliver Stone (JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar, Nixon) retorna às biografias depois de 14 anos, para contar, em pouco mais de 2 horas, detalhes sobre a infância, juventude e maturidade de George W. Bush, um dos presidentes americanos mais controversos de toda a História. O resultado é extremamente malfadado, com um roteiro cheio de falhas e atuações visivelmente prejudicadas por excesso de maneirismos.

O roteirista Stanley Wiser tinha uma difícil tarefa em suas mãos: biografar num filme relativamente curto, nuances da personalidade do ex-presidente  e passar às telas um George Bush realista e condizente com a imagem pública construída em 8 anos de Casa Branca. Apostando em Josh Brolin (numa curiosa caracterização) para criar seu personagem, Wiser opta por uma construção caricata e superficial de Bush em todos os momentos, apelando para uma coleção de situações ínúteis ao andamento da história. Isto acaba refletindo na atuação de Brolin, que parece ter trazido Lwellyn Moss (Onde Os Fracos Não Têm Vez) de volta à vida: com um sotaque texano carregado e maneiras bastante afetadas, o ator faz de sua atuação um pequeno circo dos horrores. O restante do elenco não fica devendo. James Cromwell, especialista em interpretar tipos secundários, faz de George Bush pai um homem sem personalidade alguma, diferindo sistematicamente do comportamento impetuoso do verdadeiro. Elizabeth Banks como Laura Bush, não tem muito tempo em cena, mas sua figura torna-se quase dispensável no filme (já que ela não assume posicionamento algum e parece vegetar ao lado do marido). Talvez Ellen Burstyn, como a mãe Bush, seja a única a encontrar o tom, mas sofre com a pobreza do roteiro e não alça maiores voos. E ainda há nomes como Thandie Newton, Jeffrey Wright, Scott Glenn, Ioan Gruffud e Richard Dreyfuss encerrados em pontas totalmente inúteis.

O roteiro sofre, na verdade, de falta de sistematização, já que aposta em flashbacks para contar detalhes da vida atribulada de Bush: passa pelos anos em que era calouro em Harvard, pelo período em que trabalhou nas plataformas de petróleo, pela candidatura à governador do Texas e finalmente como presidente dos EUA. O resultado é um tanto desastroso, pois todas estas fases terminam mal exploradas (e principalmente a última, mais importante, não passa de uma montagem de  sucessivos encontros na sala de reunião, com um grupo de políticos sedentos pela morte de Saddam Hussein). Em W., temos a impressão de estarmos lendo um jornal, escrito com arbitrariedade e frieza.

Se filmes ditos políticos como A Rainha, ou o mais recente Frost/Nixon, alcançaram a qualidade, a resposta só pode estar nas mãos do roteirista (que por sinal é Peter Morgan em ambos os casos). Biografar uma personalidade tão controversa de maneira tão superficial chega a ser frustrante – enquanto a maioria esperava um filme mais intimista e revelador, e menos factual. Wiser não é o único culpado pelo desastre desta película, mas seu despreparo provocou uma reação em cadeia, prejudicando atuações e a própria direção (se bem que Oliver Stone já vem entregando desastres há muito tempo).

W – EUA – 2008 – Direção: Oliver Stone – Elenco: Josh Brolin, Ellen Burstyn, Elizabeth Banks, James Cromwell, Thandie Newton – 119 min – Gênero: Drama

NOTA: 2,0 

Link Permanente 26 Comentários

Hamlet

Abril 29, 2009 at 12:23 pm (Filmes: Laurence Olivier, Tenho em casa)

Provavelmente os amantes de William Shakespeare não encontrarão defeitos nesta versão da obra-prima Hamlet, celebrada por muitos como a melhor de todas as adaptações cinematográficas do dramaturgo inglês. Vencedor de 4 Oscar em 1948, entre eles o de Melhor Filme e Melhor Ator (Laurence Olivier), o filme peca, na verdade, pela teatralização excessiva e pela falta de dinamismo.

Hamlet (Laurence Olivier) foi um dos personagens mais complexos de Shakespeare, um homem que, após o assassinato de seu pai, entra em conflito consigo mesmo. Fingindo-se de louco, abandona a noiva Ofélia (Jean Simmons) para vingar-lhe a morte, já que o pai lhe aparece como fantasma para denunciar seus assassinos. Laurence Olivier (que àquela época acabara de completar 41 anos e recebera o título de Sir da realeza britânica) nutria o sonho de adaptar Hamlet e, segundo o próprio, fazer jus à grandeza da obra shakesperiana. Juntando-se à Alan Dent, roteirizou a peça (sendo obrigado a suprimir alguns personagens por conta da falta de tempo), além de ocupar-se da direção e da intrepretação do príncipe vingador. É um projeto claramente pessoal, com detalhismo excessivo e requinte estético, uma prova cabal do comprometimento de Olivier. Talvez o grande problema de Hamlet esteja mesmo na fidelidade à estrutura narrativa da peça de 1601 (com diálogos rebuscados e uma lentidão quase insuportável, o filme enfada rápido demais, mesmo que a história seja bastante interessante e tenha forte apelo universal).

O destaque então, fica por conta do elenco. Se Olivier erra com uma direção acadêmica e maneirista, ao interpretar o príncipe ele atinge um nível assustador de talento e entrega. Cada nuance de sua atuação é um espetáculo indelével, forte o suficiente para dar algum ritmo à produção. Jean Simmons também encontra o nível exato da doce e trágica Ofélia, complementando o personagem central e trazendo sabor às tramas paralelas. Outra vertente bastante admirável é a direção de arte (já que o filme é todo encerrado num gótico e funesto castelo medieval) e os figurinos luxuosos, ambos vencedores do Oscar. E, embora acometido por uma quase-inércia, o roteiro reserva momentos antológicos, em especial àqueles em que Hamlet encontra-se com o fantasma do pai; no alto de uma torre, em meio à nevoa artificial, a voz gutural e aterrorizante do rei morto denuncia tramóias e dá nome aos assassinos, enquanto os olhos deslumbrados de Hamlet contemplam a figura mortal de seu pai. É um momento avassalador, talvez o mais impactante e chamativo de toda a película.

Legar à Hamlet o desígnio de obra superestimada talvez não seja um erro, mas é certo que o filme possui seus encantos e por vezes prende a atenção. Numa análise geral, porém, é desnecessariamente lento e muito fiel à obra original (fato que para mim não é vantajoso). Para os simpatizantes da história trágica e da linguagem subjetiva de William Shakespeare, será um prato cheio. Mas para aqueles que se enfadam com facilidade, a câmera estática de Olivier e sua narrativa minuciosa poderão ser experiências fatais. 

Hamlet – ING – 1948 – Direção: Laurence Olivier – Elenco: Laurence Olivier, Jean Simmons, Peter Cushing, Christopher Lee – 155 min – Gênero: Drama

NOTA: 7,0 

Link Permanente 8 Comentários

A Grande Arte em 100 Filmes (01-10)

Abril 26, 2009 at 3:29 pm (Ranking A Grande Arte, Top 100)

top10

# 10 – APOCALYPSE NOW (Francis Ford Coppola, 1979)

apocalypse_now

“Apocalypse Now é normalmente tratado como um dos melhores filmes já realizados e o maior protesto anti-guerra já posto em celulóide. Isso não é mentira, mas restringi-lo a apenas essa definição chega a ser um sacrilégio. Apocalypse Now é uma jornada psicologicamente devastadora e surreal. É um complexo estudo sobre a dualidade e o conflito existente em cada ser humano. Uma análise pungente e hipnotizante sobre o frágil cordão que divide o nosso lado racional e irracional.  É muito mais do que um filme sobre a estupidez da guerra, assumindo a posição de uma profunda reflexão sobre o ser humano e seus limites.” Silvio Pilau, CINEPLAYERS.

# 09 - A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA (Peter Bogdanovich, 1971)

ultima_sessao_cinema

“O resultado foi um filme saboroso, um retrato pungente da falta de perspectiva dos jovens que vivem longe dos grandes centros urbanos. Há pelo menos uma dúzia de belos personagens de duas diferentes gerações, e a narrativa contrapõe com inteligência os indivíduos das duas faixas etárias, mostrando o abismo cultural existente entre eles – de um lado, há os jovens cheios de esperanças, como Sonny (Timothy Bottoms) e Duane (Jeff Bridges); do outro, os nostálgicos e desiludidos adultos, como o dono do bar/cinema local, Sam (Ben Johnson), e a mulher do professor de ginástica, Ruth (Cloris Leachman). O filme não diz, mas sugere com firmeza, que o tempo implacável se encarregará de transformar os primeiros nos últimos. No todo, uma obra-prima relativa e injustamente esquecida”. CINEREPORTER.

# 08 - REDE DE INTRIGAS (Sidney Lumet, 1976)

rede_intrigas

Na verdade, Sidney Lumet equilibra as duas coisas com perfeição incomum, fundindo-as em uma só história. A fluidez com que sátira e romance se chocam em “Rede de Intrigas” é quase impossível em um filme de longa-metragem, mas o roteiro de Paddy Chayefsky não apenas permite que isso ocorra, como realiza uma verdadeira tour-de-force ao ir alterando lenta e firmemente a atmosfera do filme. Aos poucos, o que começa como uma comédia de crítica social vai virando uma sátira vigorosa mesclada com romance adulto que, no final, atinge o reino exagerado do melodrama, sem jamais perder a força dramática. CINEREPORTER.

# 07 – O PODEROSO CHEFÃO (Francis Ford Coppola, 1972)

poderoso_chefao

“Esse é o filme que todos falam. É o filme que todos precisam ver. É o filme que engrandeceu o cinema de uma forma impressionante. É o filme que mostra a competência impressionante de um elenco e mais ainda de um diretor”. Robson Saldanha, PORTAL CINE.

“Não é só Al Pacino. Tem Marlon Brando; a música de Nino Rota; aquela cena final com a porta batendo na cara de uma ingênua Diane Keaton… Muitos cinéfilos que nasceram dos anos 70 para cá consideram O Poderoso Chefão o melhor filme de todos os tempos”. SOCIEDADE BRASILEIRA DOS BLOGUEIROS CINÉFILOS.

 # 06 – … E O VENTO LEVOU (Victor Fleming, 1939) 

e_o_vento_levou

“O filme de Victor Fleming vai muito além dos meros elogios técnicos, visto que seu roteiro é construído de forma muito interessante e contundente, fazendo com que o espectador nem se sinta incomodado com os mais de 240 minutos de duração. Sem falar, é claro, dos memoráveis desempenhos – em especial Vivien Leigh como a inesquecível Scarlett O’Hara”. Matheus Pannebecker, CINEMA E ARGUMENTO.

Mais do que uma obra-prima do cinema norte-americano, …E O Vento Levou é uma prova de todos os elementos que faziam do cinema hollywoodiano a menina dos olhos de cinéfilos em todo o mundo. SOCIEDADE BRASILEIRA DOS BLOGUEIROS CINÉFILOS.

# 05 - QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF? (Mike Nichols, 1966)

quem_tem_medo_woolf

Mike Nichols teve a inteligência básica de não complicar, e soube fazer um filme totalmente carregado de diálogos ficar interessante e dinâmico. O primoroso trabalho de fotografia do Haskell Wexler também ajudou bastante (…) É possível que seja o conjunto de interpretações mais brilhante a atuar em um filme (…) Quem tem medo de Virginia Woolf? é um filme pesado, agressivo, carregado, que definitivamente não é para todos os gostos. Quem gosta só de filmes levinhos deve ignorá-lo totalmente (…) No final do filme estamos tão cansados e extenuados como os personagens, depois daquela noite terrível… sentimos como se estivésssemos mesmo no meio daquele fogo cruzado de alto nível”. Marcelo Rennó, MOVIELAND.

# 04 - O CREPÚSCULO DOS DEUSES (Billy Wilder, 1950)

181_poster

Crepúsculo dos Deuses é, antes de tudo, uma crítica ao lado sombrio do ser humano e à indústria cinematográfica hollywoodiana (especialmente ao fato de como ela descarta seu passado rapidamente). O filme é uma lição de como se fazer cinema. Em tela, vemos personagens fracos e moralmente ambíguos, uma direção de arte luxuosa, participação de nomes conhecidíssimos e gravações em ambientes externos reais (e não recriados em estúdio). Com certeza, é um dos melhores filmes produzidos por Billy Wilder e uma obra que rendeu algumas das cenas mais clássicas do cinema”. Kamila Azevedo, CINÉFILA POR NATUREZA, publicado no CINEMATEQUE.

# 03 – A LISTA DE SCHINDLER (Steven Spielberg, 1993)

lista_schindler

“O que assusta na história de A Lista de Schindler é saber que ela aconteceu de verdade. Se você está vendo uma das personagens sendo maltratada mesmo tentando fazer o seu melhor, aquela mulher realmente existiu e está no filme. Quando você vê o cruel Amon Goeth pegando o seu rifle e atirando em judeus simplesmente pelo prazer da ação, tudo é agravado ao pensar que ele realmente fez isso: saía em seu cavalo andando pelo meio dos judeus só para fazer sua chacina diária. Não são situações criadas para ilustrar o terror da época, e sim recriações do que alguns sobreviventes contam, do que viram ou viveram na época (…) É um filme definitivo sobre o Holocausto. Um trabalho como esse não altera o passado, mas com certeza pretende impedir que as atrocidades se repitam em um futuro qualquer. O filme é uma combinação de boas interpretações, uma produção invejável e uma história baseada em relatos individuais reais que assustam ao mostrar do que o ser humano é capaz de fazer”. Rodrigo Cunha, CINEPLAYERS.

# 02 – A DOCE VIDA (Federico Fellini, 1960)

dolce_vita

A realização de A Doce Vida esteve ameaçada quando o produtor Dino De Laurentis abandonou o projeto por não conseguir emplacar Paul Newman como protagonista. Fellini, porém, bancou Mastroianni, que foi responsável por uma das cenas mais memoráveis da história do cinema, na qual se banha com roupa e tudo na Fontana di Trevi, juntamente com Sylvia, uma atriz hollywoodiana em visita a Roma, interpretada pela sueca Anita Ekberg. Luis Pires, CRANIK.

Provavelmente, não há nada que cause mais desânimo em uma pessoa do que o vazio emocional, intelectual e, até mesmo, espiritual provocado pelo cotidiano da mesma. Por este motivo nos apegamos às mais variadas formas de preencher tal “vazio” a fim de encontrarmos um propósito para seguir com nossas vidas adiante. Mas será que conseguimos preencher tal vazio da maneira correta? Será que o fazemos de modo satisfatório, ou seja, de um modo onde este “buraco” realmente seja preenchido a ponto de não causar mais constantes insatisfações pessoais? Foi baseado nestes questionamentos que Federico Fellini realizou “A Doce Vida”. CINE-PHYLUM.

# 01 – A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (Frank Capra, 1946)

felicidade_nao_se_compra

“Esse é o melhor filme já feito não exatamente sobre o Natal, mas sobre o espírito que a data deveria proporcionar nas pessoas. No mundo inteiro. Tudo seria bem mais fácil e feliz se levássemos o filme a sério. É a comprovação do otimismo que marcou a carreira de Frank Capra, diretor de títulos maravilhosos que celebram a bondade que existe nos corações dos homens”. Otávio Almeida, HOLLYWOODIANO.

Com toda essa inocência terna e sincera, A Felicidade Não Se Compra é até hoje um dos mais belos filmes do mundo, pois trata de temas importantes com simplicidade e de maneira tocante sem nunca parecer piegas ou infantil. Seus personagens perfeitos não caem na chatice ou na antipatia, e sim funcionam como o perfeito exemplo de como uma boa pessoa pode ser. Em um mundo capitalista de como era o de 1946, pós-crise de 1929 e o início da reconstrução após a Segunda Guerra Mundial, devíamos refletir em pleno século XXI sobre o que Capra queria nos dizer naquele tempo, sobre os verdadeiros valores da vida”. Rodrigo Cunha, CINEPLAYERS. 

Link Permanente Deixe um comentário

A Grande Arte em 100 Filmes (11-20)

Abril 24, 2009 at 2:57 pm (Ranking A Grande Arte, Top 100)

top10

# 20 - O TESOURO DE SIERRA MADRE (John Huston, 1948)

dvd_7945Na década de 1940, Humphrey Bogart era acostumado a interpretar sujeitos mordazes e inteligentes, sem esquecer jamais da elegância e da sedução. É possível imaginar o tamanho do espanto quando o vemos em O Tesouro de Sierra Madre, obra prima do cineasta John Huston: ele ainda é bêbado, mas jamais esteve tão maltrapilho e ganancioso, incapaz de colocar sentimentos nobres como honra e amor (vide Casablanca) antes de sua febre incontrolável pela riqueza. Aqui, Bogart vive um aventureiro, que parte, junto à dois amigos igualmente gananciosos, em busca de ouro, possivelmente encerrado sobre uma região mexicana montanhosa. O que nenhum deles poderia supor era que, a certa altura da expedição, a ambição desmedida tomaria partido de todos, transformando-os em verdadeiros animais selvagens, prontos a defender seus próprios interesses. O personagem de Bogart parece ser o único a acordar do transe provocado pelo ouro (em tal ponto da película, ele percebe quão mesquinhas tem sido suas atitudes); mas a pergunta é: ele conseguirá trazer seus amigos à realidade outra vez? Um excepcional filme do mestre John Huston, injustamente derrotado no Oscar 1948 (pelo mediano Hamlet), considerado pelo AFI como um dos 100 melhores filmes de todos os tempos.

# 19 – 2001, UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO (Stanley Kubrick, 1968)

a2001-poster2001 – Uma Odisséia no Espaço é uma das mais vibrantes ficções científicas de toda a História, à frente de seu tempo não apenas pelo título, mas por abordar assuntos intrigantes (em especial a vulnerabilidade do ser humano sobre um avanço tecnológico sem precedentes). Misturando música clássica com imagens perturbadoras (a abertura do filme, que acompanha um grupos de macacos pré-históricos em suas primeiras descobertas é um exemplo), o filme encanta involuntariamente. O roteiro explora a evolução da Humanidade em milhões de anos de história, até atingir um momento crucial para a raça humana, desenvolvida e transformadora: sinais enviados de um monolito negro dão conta de uma possível civilização extraterrestre, e os astronautas enviados para averiguar o episódio, são aprisionados e escravizados pelo computador HAL 9000 (o cérebro da espaçonave). O desfecho existencial e inconcluso é de um brilhantismo impressionante, permitindo as mais variadas interpretações. Stanley Kubrick, ousado como nunca.

 # 18 – CHINATOWN (Roman Polanski, 1974)

chinatown-poster04tA obra-prima de Roman Polanski é ambientada na década de 1930, quando a cidade de Los Angeles sofre os efeitos de um verão infernal (há o desabastecimento da região, graças à seca). J.J. Gittes (interpretado por Jack Nicholson), um detetive especializado em casos de adultério,é procurado por uma misteriosa mulher, Evelyn Mulray para que investigue os passos de seu marido, o chefe do departamento de Águas e Energia da metrópole. O que ele não imaginava era estar sendo engandao, já que a verdadeira Evelyn (Faye Dunaway) lhe é apresentada dias depois. Para completar o caso inacreditável, o marido de Evelyn é encontrado morto dentro da represa da cidade. A partir daí, uma série de acontecimentos intrigantes passa pela tela, revelando segredos impressionantes de todos os personagens envolvidos com o homem assassinado. O título provém do desfecho do filme, já que, segundo o próprio Gittes, ”tudo termina em Chinatown”, o bairro chinês de Los Angeles. Há uma ambientação fabulosa no gênero noir em cada tomada do longa, levando Polanski à sua mais perfeita direção. Os desempenhos de Jack Nicholson, Faye Dunaway e John Huston (que faz o pai de Evelyn) são extraordinárias, e são um dos pontos mais fortes de Chinatown. Outra vertente quase imbatível é o roteiro de Robert Towne (vencedor do Oscar), que trabalha com muito suspense e reviravoltas. O filme foi indicado em outras 10 categorias, mas injustamente não levou nenhuma (sim, o filme é melhor que O Poderoso chefão Parte II).

# 17 - O SILÊNCIO DOS INOCENTES (Johnatan Demme, 1991)

silencio-dos-inocentes-poster01tBaseado no best-seller de Thomas Harris, O Silêncio dos Inocentes tornou-se famoso por arrebatar os 5 principais prêmios do Oscar 1991 (filme, direção, ator, atriz e roteiro). Justiça seja feita: este trabalho marcante do ótimo cineasta Johnatan Demme (Filadélfia) não apenas trouxe um dos mais bem-sucedidos vilões dahistória do cinema, como também consolidou-se como o thriller máximo da Hollywood contemporânea. Quando a agente Clarice Starling (Jodie Foster, em sua melhor interpretação) é designada por seu superior (Scott Glenn) para traçar o perfil psicológico do assassino Buffalo Bill, ela não imaginava que seu trabalho exigisse sessões amedrontadoras com o psiquiatra canibal Hannibal Lecter (Anthony Hopkins, numa tour de force). As primeiras entrevistas já demonstram muito do caráter manipulador e peculiar deste perigoso homem, e logo um alucinante jogo de gato e rato se estabelece entre os dois. Com diálogos precisos e envolventes, O Silêncio dos Inocentes foi um dos tantos filmes a marcar época, pela originalidade, pela impressionante entrega do elenco, e claro, pela qualidade insdiscutível dentro de seu gênero.

# 16 - O LEOPARDO (Luchino Visconti, 1963)

1245089064_leopardoposter02A obra-prima de Luchino Visconti (extraordinário diretor italiano, realizador de Rocco e Seus Irmãos, morto há mais de 30 anos) é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais bem estruturados de toda a história do cinema – com trabalhos de direção de arte, figurino e fotografia atingindo o grau máximo da qualidade e (por que não?) da perfeição. É uma adaptação do best-seller autobiográfico do príncipe Giuseppe Tomasi Di Lampedusa (roteiro redefinido pelo próprio Vischonti, que lhe deu tons auto-biográficos). Retrata a queda da aristocracia feudal italiana, substituída pela nova burguesia surgida com a unificação da Itália liderada por Garibaldi. A presença de Burt Lancaster (como O Leopardo) é notável e icônica, neste que é, com vantagem, o melhor trabalho de atuação de sua bela carreira (Burt viveu o general adúltero de A Um Passo da Eternidade). Há ainda dois atores fabulosos (Alain Delon e Claudia Cardinale, belíssimos), que vivem os representantes das duas castas italianas opostas – que se unem pelo bem de suas famílias, almejando avanços na negociação entre nobres e burgueses. Um filme imperdível  e absolutamente inesquecível (na mais ampla acepção da palavra).

# 15 – O ILUMINADO (Stanley Kubrick, 1980)

iluminado-poster01t1Trabalhando com o sobrenatural de maneira surpreendente, Stanley Kubrick atinge um patamar notável nesta adaptação do romance homônimo de Stephen King. Quando Jack Torrance (Jack Nicholson) recebe a incumbência de passar alguns meses como caseiro do medonho hotel Overlook, na baixa temporada, sua família não imaginava estar prestes a assistir o início de sua insanidade. O filho Danny (vivido pelo expressivo garoto Danny Lloyd) é sensitivo, e através de seu amigo imaginário Tonny, toma noção de que o Overlook é amaldiçoado. Wendy (Shelley Duvall, que reza a lenda ter sido massacrada por Kubrick) é a única que parece estar imune à suposta força sobrenatural do Overlook, transformando-se, ao longo do filme, numa mera vítima do marido enlouquecido. Para mim, o grande mérito de O Iluminado está na dubiedade do roteiro; se Stephen King dava-nos a certeza de que existiam fantasmas soltos pelo hotel, Kubrick deixa esta constatação inconclusa, ficando a cargo de quem assiste formar sua própria opinião. Com cenas memoráveis (vide a abertura, o rio de sangue que brota das paredes, além da panorâmica sobre o labirinto), O Iluminado ainda oferece uma das melhores interpretações da carreira de Nicholson, além de recursos estéticos magníficos e uma excepcional direção do mestre Stanley Kubrick. O melhor de todos os horrores psicológicos.

# 14 - LARANJA MECÂNICA (Stanley Kubrick, 1971)

362_posterLaranja Mecânica pode ser considerada a obra-prima de Stanley Kubrick, uma produção fantástica, mais uma vez alicerçada sobre as doenças da mente humana, resultante do terrível efeito colateral provocado pelo próprio meio social que o homem habita. Alex DeLarge (uma composição fantástica de Malcolm McDowell, injustamente esnobada no Oscar) é um jovem problemático e ocioso que leva uma vida calcada na delinquência. Seja invadindo uma casa e estuprando uma mulher indefesa na frente do marido amordaçado (ao som da famosa Singin In The Rain, de Cantando na Chuva) ou atacando uma mulher solitária na calada da noite, Alex se diverte das maneiras mais condenáveis. Capturado pela polícia, porém, é cobaia de um experimento científico que promete a cura da psicopatia através de uma lavagem cerebral. A partir daí, uma reviravolta se estabelece na trama central, permitindo que Kubrick crie uma sátira divertida sobre as engrenagens que movem nossa sociedade.

# 13 – PERSONA (Ingmar Bergman, 1966)

quando_duas_mulheres1Uma atriz teatral de sucesso sofre uma crise emocional e emudece. Para se recuperar, parte para uma casa de campo, sob os cuidados de uma enfermeira, que admira e tenta compreender a razão de seu silêncio. Isoladas, as duas mulheres desenvolvem uma relação de forte intensidade emocional. Persona é um filme repleto de inovações: da impressionante sequência de abertura (com recorrências a aranhas, crucificacão, gestação) à famosa cena em que ocorre a fusão das imagens de Bibi Andersson e Liv Ullman, transformando-se numa só Persona), nada fica preso ao convencional. Estas atrizes entregam desempenhos viscerias, comandadas pela câmera perscrutadora do mestre Ingmar Bergman (que tem aqui sua obra-prima). Persona foi um dos filmes mais discutidos de toda a filmografia de Bergman, talvez sua obra mais profunda e enigmática. Bergman atinge aqui o seu apogeu como diretor e roteirista. De posse de um simples encontro entre duas mulheres (em 90 minutos de projeção), ele narra os anseios humanos com coragem admirável, revelando desejos, fantasias, repulsas e dogmas que permeiam a alma humana. E o melhor: tudo aqui é subjetivo, o que acentua a verossimilhança das situações – neste que é, sem sombra de dúvida, um dos melhores filmes de todos os tempos.

# 12 - PSICOSE (Alfred Hitchcok, 1960)

psicose1Não há cinéfilo que não tenha visto a cena mais famosa desta obra-prima de Hitchcock – o mórbido e tenebroso encontro do assassino com sua vítima num banheiro de motel. Pioneiro em todos os sentidos, este celebrado filme de 1960 concentra em si, até hoje, olhares dos mais impressionados. Na época, a palavra assassinato ainda era tratada no cinema de maneira circunstancial e basicamente passional, mas após Psicose, este termo passou a ser associado com problemas psicológicos e desvio de personalidade. Tal atribuição inspirou tudo o que se pode imaginar sobre os serial-killers da década de 1980 e posteriores. Dotado de um suspense atraente e magnificamente orquestrado, Psicose atinge um nível quase insuperável dentro de sua proposição – tudo acentuado pela extarordinária trilha sonora de Bernard Hermann (alguém consegue esquecer o ruído extravagante dos violinos no clímax do filme?). Outro destaque é Anthony Perkins, que domina o filme de ponta a ponta.

# 11 – UMA RUA CHAMADA PECADO (Elia Kazan, 1951)

rua_chamada_pecadoMarlon Brando eVivien Leigh entregam suas melhores atuações nesta adaptação da obra de Tenesse Williams, dirigida com maestria pelo lendário Elia Kazan. Blanche DuBois é uma mulher frustrada que acaba de perder sua fortuna (em parte consumida pela hipoteca de uma mansão) e está em busca de abrigo na casa da irmã Stella (Kim Hunter). Esperando encontrar o conforto oferecido pela docilidade da irmã mais nova, é surpreendida pela presença do marido da mesma, Stanley Kowalski (gostaria de saber porque Brando não ganhou o Oscar). Bruto e de modos muito selvagens, Stanley parece ser o único a não sucumbir diante do charme de Blanche, já que seu melhor amigo, o solícito Mitch (Karl Malden) se apaixona perdidamente pela mesma. O que todos não sabem é que Blanche guarda uma porção de segredos. Se a peça homônima de Williams, incessantemente interpretada na Broadway fez tanto sucesso, a versão cinematográfica parecia trazer o mesmo resultado. E de fato ele veio. Injustamente preterido do Oscar de Melhor Filme de seu ano (para premiarem o legalzinho Sinfonia de Paris), Uma Rua Chamada Pecado conta com um dos melhores elencos já reunidos num mesmo filme (evidenciado pela premiação conjunta de Hunter, Malden e Leigh no Oscar, com exceção de Brando, que perdeu para Humphrey Bogart injustamente). O ambiente sujo e desordeiro do cortiço é retratado de maneira notável por Elia Kazan, que cuida ainda de explorar a tensão sexual entre os personagens (graças à beleza de Leigh e Brando) e repassá-las ao público. O ritmo é teatral, mas não compromete em momento algum a grandeza deste ótimo filme, o melhor da bela carreira de Kazan.

Link Permanente Deixe um comentário

A Grande Arte em 100 Filmes (21-30)

Abril 23, 2009 at 2:19 pm (Ranking A Grande Arte, Top 100)

top10

# 30 - 8 1/2 (Federico Fellini, 1963)

dvd_4532Imagine que você é um diretor de cinema e precisa, a qualquer custo, entregar um novo projeto para o estúdio (cumprindo, assim, um contrato que já vigorava há um bom tempo). Agora, imagine que lhe ocorra, repentinamente, um bloqueio mental e que absolutamente nada surja em sua mente. É essa a encruzilhada que assombra o cineasta Guido (vivido por um dos mais extraordinários atores de todos os tempos, Marcello Mastroianni). Pressionado pela família e pelos superiores, Guido mergulha de cabeça numa espécie de bloqueio mental, que mais parece um parasita incontrolável – a consumir pouco a pouco sua sanidade. Um afastamento temporário do mundo que o rodeia (isolando-se de tudo e todos) faz o homem entrar em contato com diversas passagens de sua vida, e quem sabe, encontrar as respostas de que tanto precisa. O filme é típico de Fellini (que começava uma nova vertente em sua carreira, já consolidada), com imagens surreais, enquadramentos insólitos, visões estarrecedoras sobre o processo criativo. Indispensável para os amantes do cinema – e talvez uma resposta para tantas dúvidas que pairam nas cabeças daqueles envolvidos com o cinema.

 # 29 A AVENTURA (Michelangelo Antonioni, 1960)

poster-lavventura111Michelangelo Antonioni concebeu, na década de 60, uma trilogia de filmes inspiradas no tédio existencial que assolava a vida da elite italiana. A Aventura (1960) foi o primeiro exemplar, seguido por A Noite e O Eclipse, realizados nos dois anos posteriores. A história conta um episódio incomum na vida de três casais italianos, que se aventuram por uma ilha remota e paradisíaca, situada na Sicília. O que nenhum deles podia imaginar era que Anna, uma das excursionistas, desapareceria misteriosamente. Para quem já se acostumou ao cinema de Antonioni, A Aventura poderá revelar-se como o exemplar mais fascinante já criado pelo cineasta. Como o clássico de Fellini, A Doce Vida, o longa não se ocupa em cumprir regras pré-determinadas. Não oferece uma explicação plausível para o sumiço de Anna, por exemplo (teria ela se suicidado, fugido do grupo deliberadamente, ou mesmo sido raptada?). A situação, na verdade, permite que toda a sorte de relações se abata sobre o grupo – que a certa altura parece mais preocupado em discutir assuntos de cunho sexual do que procurar pela desaparecida. A crítica ao vazio emocional que dominava os ricos é mordaz e não faz concessões. Antonioni ocupa-se, ainda, em explorar a beleza fulgurante de sua atriz favorita, Monica Vitti, algo que se confunde com o encanto entorpecente da ilha mediterrânea (composta por paisagens naturais e construções seculares de tirar o fôlego).

 28 - CINEMA PARADISO (Giuseppe Tornatore, 1989)

1244856648_cinemaparadisoposter01_thumbCinema Paradiso não é somente a obra mais bela que homenageia o cinema, como se impõe diante de qualquer outra que se arrisque na mesma proposta. Filmado em 1989 pelo ótimo diretor Giuseppe Tornatore, o filme narra a história de Toto, um garoto pobre que vive numa pequena e isolada cidade no sul da Itália. Morando com a mãe, o garoto sofre a angústia de ter um pai nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial. Mas é na figura de Fredo, o velho projecionista do único cinema do local (o Cinema Paradiso), que ele encontra o verdadeiro significado da amizade e do amor paternos (mesmo que no início os dois se estranhem muito e troquem farpas, hilariamente). Com o passar dos anos, Toto deixa a cidade, e por ocasião da morte de Fredo, retoma anos depois – mais velho e cheio de saudades do período em que aprendeu a amar a sétima arte. O filme é repleto de simbolismos e possui uma força emotiva irrepreensível. Arrebatou a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro em 1989 (sendo, injustamente, preterido de maiores voos – num ano dominado por produções medianas e que deu a consagração máxima ao insosso Conduzindo Miss Daisy). Atenção para a cena final, emocionalmente devastadora e simplesmente inesquecível.

# 27 - SE MEU APARTAMENTO FALASSE (Billy Wilder, 1960)

dvd_16862Jack Lemmon e Shirley Mclaine fazem aqui uma dupla adorável, regida pela câmera intimista de Billy Wilder. Numa época em que adultério não era abordado tão abertamente pelo cinema, Se Meu Apartamento Falasse se destaca (e muito). Não por tratar do tema sem nenhuma hesitação, mas por utilizar de um painel cômico e apaixonante para construir uma poderosa crítica social. Lemmon vive um personagem que se vende aos executivos de sua empresa por qualquer tipo de promoção, emprestando aos mesmos seu apartamento – e facilitando, portanto, uma traição. McLaine é uma das amantes, que,  após ser abandonada, decide permanecer por mais tempo no local. Isto permite que ambos se conheçam e troquem experiências (e claro, qualquer um imagina o que vem depois). Não fosse o prestígio de Wilder, talvez o filme fosse apenas outra comédia; mas o estilo provocativo do diretor (que também assina o roteiro) fizeram deste o grande vencedor do Oscar 1960 - uma experiência e tanto para aqueles que gostam de rir e refletir ao mesmo tempo. “Fui elogiado como crítico social”, disse Wilder, “como alguém que tivesse desmascarado o mundo capitalista da mercadoria e dos empregados, onde cada um tinha que se vender. Levantei-me e falei. Disse que aquilo que era mostrado poderia de fato acontecer em toda parte, tanto em Tóquio quanto em Londres, em Paris como em Munique. Só não poderia acontecer numa cidade do mundo, Moscou; porque lá Lemmon não poderia de forma alguma emprestar seu apartamento. Porque três outras famílias ainda morariam com ele ali”.

# 26 – UM CORPO QUE CAI (Alfred Hitchcock, 1958)

um-corpo-que-cai-poster02tSe para muitos Um Corpo que Cai é o melhor filme de Hitchcock, para mim também é. Talvez por trazer o fabuloso James Stewart (já envelhecido) em um de seus mais densos papéis ou mesmo por envolver na narrativa vários elementos místicos (até mesmo sobrenaturais) de maneira jamais vista em outro filme do mestre (mesmo que Rebecca explore o tema de maneira quase tão genial). Um detetive aposentado sofre de uma terrível vertigem (acentuada por sua fobia incontrolável à altura) e se aposenta da polícia, trabalhando por conta própria. Designado por uma amigo para seguir sua esposa (Kim Novak), que apresenta impulsos suicidas, Stewart é imediatamente envolvido pela história da moça, obcecada por uma antepassada que se atirou de uma ponte em tempos anteriores. O que Stewart não esperava era se encantar pela beleza de Novak, e pior, deixar-se envolver tanto com os fantasmas que a perturbam. Na verdade, a força deste filme está principalmente na obsessão que o detetive cria pela mulher, levando-o a cometer atos impressionantes no futuro - uma mistura de desejo sexual e loucura que o levam às últimas consequências. Perturbador e muito enigmático, Um Corpo que Cai é Alfred Hitchcock em estado puro (e inspirado como nunca).

# 25 – 3 HOMENS EM CONFLITO (Sergio Leone, 1966) 

3-homens-em-conflito-poster02Tradução do original The Good, The Bad and The Ugly, Três Homens em Conflito é  que há de melhor no cinema de Sergio Leone, um diretor ousadíssimo que jamais se rendeu ao estilo “americano” de fazer faroeste. Leone sempre trabalhou com uma câmera curiosa em seus filmes, explorando desde panorâmicas deslumbrantes (bem ao estilo de David Lean), e closes minimalistas, que captam toda e qualquer sensação exteriorizada na feição de seus personagens. E quase sempre estas sensações são ruins. Acho que a coragem de Leone em mostrar caubóis desglamurizados é uma de suas mais notáveis características. São homens sujos e mal vestidos, buscando incessantemente afirmação financeira. Não titubeiam em trapaçar, matar, roubar, atirar. O duelo entre os três personagens (o Bom, o Mau e o Feio) é inebriante, com interpretações dignas de louvor de Clint Eastwood, Lee van Cleef e Elli Wallach. O filme, que se concentra na busca insana por um tesouro, tem passagens muito memoráveis, e apresenta ainda uma trilha sonora estupenda de Ennio Morricone (acho que todo mundo sabe de qual estou falando). A saga destes três homens acaba sendo esmuiçada num trajeto de ódio, intolerância, dor, diversão e contemplação. É a máxima de Leone. O melhor de todos os faroestes. 

# 24 - AS VINHAS DA IRA (John Ford, 1940)

vinhas-da-ira-poster01tUm dos mais eficientes filmes de John Ford, As Vinhas da Ira, adaptado do vencedor do Prêmio Pulitzer homônimo de John Steinbeck, retrata de maneira amarga a crise econômica que se abateu sobre os EUA na década de 1930. Tom Joad (vivido pelo ótimo Henry Fonda) é um presidiário que acaba de receber condicional, e está de volta à sua terra, em Oklahoma. Mas a queda repentina da economia acabou transformando os fazendeiros da região (e de todo o resto do país) em verdadeiros escravos – a mercê da opressão do sistema bancário. Forçado a deixar sua casa, Joad parte com a família para a Califórnia, em busca de oportunidades que permitam o restabelecimento financeiro, e claro, moral. As Vinhas da Ira foi brilhantemente adaptado por Nunnaly Johnson, roteirista que soube como ninguém exibir o painel deprimente que assolava seu país na época, explorando a amargura e a tristeza de milhões de americanos empobrecidos. Cabe aos Joad investir contra a maré de azar – e lutar por mais dignidade, fato este também explorado pelo roteiro, que apesar de tristonho, procura dar alguns fachos de otimismo à nação. O desfecho é belo e simbólico, fechando com chave de ouro este, que sem dúvida, é um dos grandes filmes da magnífica carreira de Ford.

# 23 - O BEBÊ DE ROSEMARY (Roman Polanski, 1968) 

bebe_de_rosemary2Há alguns anos não havia absorvido o poder deste ótimo filme de Roman Polanski, mas de um tempo para cá, vi que O Bebê de Rosemary conseguiu atingir a perfeição dentro de sua proposta – incitar o horror explorando o desconhecido. Mia Farrow interpreta uma Rosemary frágil e dependente, que vê a segurança na figura do marido, Guy (Nick Cassavetes). Mas, será que um ator mal-sucedido seria capaz de tudo para atingir o sucesso? Será que não exitaria em vender a alma ao demônio em troca de prestígio? Perguntas como essa assombram a pobre Rosemary por 2h de projeção (muitas vezes sustentadas pela tenebrosa cena do ritual) – e uma paranóia massacrante se apodera de sua mente. O filme atinge a perfeição ao misturar alucinação e realidade, e o trabalho maravilhoso de Roman Polanski se impõe a cada instante. Baseado no best-seller de Ira Levin, o filme é uma curiosa crítica à contracultura americana, e foi lançado numa época em que o satanismo e a perda da fé estavam em moda. O desfecho (ao qual demorei anos a me acostumar) é impactante – e acabou inspirando uma enxurrada de produções baseadas em crianças voltadas para o Mal.

 # 22 - QUANTO MAIS QUENTE MELHOR (Billy Wilder, 1959)

561_poster2Não há nada de ingênuo nesta imperdível comédia do mestre Billy Wilder, onde dois músicos (Jack Lemmon e Tony Curtis) perseguidos por gângsters, se travestem de mulher e passam a integrar uma simpática e sensual banda feminina, liderada pela onipresente e lindíssima Marylin Monroe. A paixão de um dos músicos é imediata, afinal de contas, quem não se apaixonaria por Marylin Monroe, no auge de sua beleza, talento e criatividade? Prepare-se para uma comédia de erros esfuziante, muito à frente de sua época, ferina e cheia de sensualidade. Um dos trabalhos mais brilhantes de Wilder, Quanto Mais Quente Melhor tem ainda I Wanna Be Loved By You, cantada com toda a graça pela protagonista. Outro grande destaque, claro, é Jack Lemmon, que vive os momentos mais engraçados de todo o longa – ele inclusive tem de lidar com o assédio de um milionário depravado - um velho deslumbrado pela juvenilidade das moças da banda, mas que demonstra preferências por aquela mais improvável. Tony Curtis completa o elenco(usando de seu charme e talento para conquistar o público). É considerado pelo AFI como a melhor comédia de todos os tempos, ocupando a posição número 25 entre os melhores filmes americanos.

# 21 - A MALVADA (Joseph L. Manckiewicz, 1950)

malvada-poster02Desde que a astuta Eve (a ótima Anne Baxter) vislumbra a famosa atriz Margot Channing (a extraordinária Bette Davis) na porta do teatro, faz de tudo para conquistar sua confiança, tornando-se, dentro de pouco tempo, seu braço direito. O que Margot não esperava era que a sensível e doce Eve que ela conhecera em seu camarim se transformaria numa mulher implacável e oportunista, disposta a tudo para conseguir alcançar seu maior objetivo: transformar-se numa atriz ainda mais famosa que sua mentora. Um filme de roteiro extraordinário, que explora toda a sordidez da alma de Eve, a malvada do título brasileiro. Acompanhada por um inescrupuloso George Sanders (vencedor do Oscar), ela manipula todas as situações à sua volta, para que possa tirar benefício das mesmas (quase sempre às custas de chantagem). O desfecho, irônico e reflexivo, mostra com clareza, que, por trás de atitudes solícitas, existe sempre alguém pronto a trapacear. É uma visão pessimista, mas profundamente realista do show biz. A Malvada é até hoje, um dos recordistas de indicações ao Oscar (14 no total), sendo que arrebatou 6 (incluindo Melhor Filme de 1950). Bette Davis está espetacular, neste que é seu melhor papel – impossível não se envolver pelo comportamento quase bipolar de Margot Channing, uma personagem cheia de nuances, e portanto inesquecível.

Link Permanente Deixe um comentário

Próxima página »