
# 30 - 8 1/2 (Federico Fellini, 1963)
Imagine que você é um diretor de cinema e precisa, a qualquer custo, entregar um novo projeto para o estúdio (cumprindo, assim, um contrato que já vigorava há um bom tempo). Agora, imagine que lhe ocorra, repentinamente, um bloqueio mental e que absolutamente nada surja em sua mente. É essa a encruzilhada que assombra o cineasta Guido (vivido por um dos mais extraordinários atores de todos os tempos, Marcello Mastroianni). Pressionado pela família e pelos superiores, Guido mergulha de cabeça numa espécie de bloqueio mental, que mais parece um parasita incontrolável – a consumir pouco a pouco sua sanidade. Um afastamento temporário do mundo que o rodeia (isolando-se de tudo e todos) faz o homem entrar em contato com diversas passagens de sua vida, e quem sabe, encontrar as respostas de que tanto precisa. O filme é típico de Fellini (que começava uma nova vertente em sua carreira, já consolidada), com imagens surreais, enquadramentos insólitos, visões estarrecedoras sobre o processo criativo. Indispensável para os amantes do cinema – e talvez uma resposta para tantas dúvidas que pairam nas cabeças daqueles envolvidos com o cinema.
# 29 - A AVENTURA (Michelangelo Antonioni, 1960)
Michelangelo Antonioni concebeu, na década de 60, uma trilogia de filmes inspiradas no tédio existencial que assolava a vida da elite italiana. A Aventura (1960) foi o primeiro exemplar, seguido por A Noite e O Eclipse, realizados nos dois anos posteriores. A história conta um episódio incomum na vida de três casais italianos, que se aventuram por uma ilha remota e paradisíaca, situada na Sicília. O que nenhum deles podia imaginar era que Anna, uma das excursionistas, desapareceria misteriosamente. Para quem já se acostumou ao cinema de Antonioni, A Aventura poderá revelar-se como o exemplar mais fascinante já criado pelo cineasta. Como o clássico de Fellini, A Doce Vida, o longa não se ocupa em cumprir regras pré-determinadas. Não oferece uma explicação plausível para o sumiço de Anna, por exemplo (teria ela se suicidado, fugido do grupo deliberadamente, ou mesmo sido raptada?). A situação, na verdade, permite que toda a sorte de relações se abata sobre o grupo – que a certa altura parece mais preocupado em discutir assuntos de cunho sexual do que procurar pela desaparecida. A crítica ao vazio emocional que dominava os ricos é mordaz e não faz concessões. Antonioni ocupa-se, ainda, em explorar a beleza fulgurante de sua atriz favorita, Monica Vitti, algo que se confunde com o encanto entorpecente da ilha mediterrânea (composta por paisagens naturais e construções seculares de tirar o fôlego).
# 28 - SE MEU APARTAMENTO FALASSE (Billy Wilder, 1960)
Jack Lemmon e Shirley Mclaine fazem aqui uma dupla adorável, regida pela câmera intimista de Billy Wilder. Numa época em que adultério não era abordado tão abertamente pelo cinema, Se Meu Apartamento Falasse se destaca (e muito). Não por tratar do tema sem nenhuma hesitação, mas por utilizar de um painel cômico e apaixonante para construir uma poderosa crítica social. Lemmon vive um personagem que se vende aos executivos de sua empresa por qualquer tipo de promoção, emprestando aos mesmos seu apartamento – e facilitando, portanto, uma traição. McLaine é uma das amantes, que, após ser abandonada, decide permanecer por mais tempo no local. Isto permite que ambos se conheçam e troquem experiências (e claro, qualquer um imagina o que vem depois). Não fosse o prestígio de Wilder, talvez o filme fosse apenas outra comédia; mas o estilo provocativo do diretor (que também assina o roteiro) fizeram deste o grande vencedor do Oscar 1960 - uma experiência e tanto para aqueles que gostam de rir e refletir ao mesmo tempo. “Fui elogiado como crítico social”, disse Wilder, “como alguém que tivesse desmascarado o mundo capitalista da mercadoria e dos empregados, onde cada um tinha que se vender. Levantei-me e falei. Disse que aquilo que era mostrado poderia de fato acontecer em toda parte, tanto em Tóquio quanto em Londres, em Paris como em Munique. Só não poderia acontecer numa cidade do mundo, Moscou; porque lá Lemmon não poderia de forma alguma emprestar seu apartamento. Porque três outras famílias ainda morariam com ele ali”.
# 27 – UM CORPO QUE CAI (Alfred Hitchcock, 1958)
Se para muitos Um Corpo que Cai é o melhor filme de Hitchcock, para mim também é. Talvez por trazer o fabuloso James Stewart (já envelhecido) em um de seus mais densos papéis ou mesmo por envolver na narrativa vários elementos místicos (até mesmo sobrenaturais) de maneira jamais vista em outro filme do mestre (mesmo que Rebecca explore o tema de maneira quase tão genial). Um detetive aposentado sofre de uma terrível vertigem (acentuada por sua fobia incontrolável à altura) e se aposenta da polícia, trabalhando por conta própria. Designado por uma amigo para seguir sua esposa (Kim Novak), que apresenta impulsos suicidas, Stewart é imediatamente envolvido pela história da moça, obcecada por uma antepassada que se atirou de uma ponte em tempos anteriores. O que Stewart não esperava era se encantar pela beleza de Novak, e pior, deixar-se envolver tanto com os fantasmas que a perturbam. Na verdade, a força deste filme está principalmente na obsessão que o detetive cria pela mulher, levando-o a cometer atos impressionantes no futuro - uma mistura de desejo sexual e loucura que o levam às últimas consequências. Perturbador e muito enigmático, Um Corpo que Cai é Alfred Hitchcock em estado puro (e inspirado como nunca).
# 26 - AS VINHAS DA IRA (John Ford, 1940)
Um dos mais eficientes filmes de John Ford, As Vinhas da Ira, adaptado do vencedor do Prêmio Pulitzer homônimo de John Steinbeck, retrata de maneira amarga a crise econômica que se abateu sobre os EUA na década de 1930. Tom Joad (vivido pelo ótimo Henry Fonda) é um presidiário que acaba de receber condicional, e está de volta à sua terra, em Oklahoma. Mas a queda repentina da economia acabou transformando os fazendeiros da região (e de todo o resto do país) em verdadeiros escravos – a mercê da opressão do sistema bancário. Forçado a deixar sua casa, Joad parte com a família para a Califórnia, em busca de oportunidades que permitam o restabelecimento financeiro, e claro, moral. As Vinhas da Ira foi brilhantemente adaptado por Nunnaly Johnson, roteirista que soube como ninguém exibir o painel deprimente que assolava seu país na época, explorando a amargura e a tristeza de milhões de americanos empobrecidos. Cabe aos Joad investir contra a maré de azar – e lutar por mais dignidade, fato este também explorado pelo roteiro, que apesar de tristonho, procura dar alguns fachos de otimismo à nação. O desfecho é belo e simbólico, fechando com chave de ouro este, que sem dúvida, é um dos grandes filmes da magnífica carreira de Ford.
# 25 - O BEBÊ DE ROSEMARY (Roman Polanski, 1968)
Há alguns anos não havia absorvido o poder deste ótimo filme de Roman Polanski, mas de um tempo para cá, vi que O Bebê de Rosemary conseguiu atingir a perfeição dentro de sua proposta – incitar o horror explorando o desconhecido. Mia Farrow interpreta uma Rosemary frágil e dependente, que vê a segurança na figura do marido, Guy (Nick Cassavetes). Mas, será que um ator mal-sucedido seria capaz de tudo para atingir o sucesso? Será que não exitaria em vender a alma ao demônio em troca de prestígio? Perguntas como essa assombram a pobre Rosemary por 2h de projeção (muitas vezes sustentadas pela tenebrosa cena do ritual) – e uma paranóia massacrante se apodera de sua mente. O filme atinge a perfeição ao misturar alucinação e realidade, e o trabalho maravilhoso de Roman Polanski se impõe a cada instante. Baseado no best-seller de Ira Levin, o filme é uma curiosa crítica à contracultura americana, e foi lançado numa época em que o satanismo e a perda da fé estavam em moda. O desfecho (ao qual demorei anos a me acostumar) é impactante – e acabou inspirando uma enxurrada de produções baseadas em crianças voltadas para o Mal.
# 24 - QUANTO MAIS QUENTE MELHOR (Billy Wilder, 1959)
Não há nada de ingênuo nesta imperdível comédia do mestre Billy Wilder, onde dois músicos (Jack Lemmon e Tony Curtis) perseguidos por gângsters, se travestem de mulher e passam a integrar uma simpática e sensual banda feminina, liderada pela onipresente e lindíssima Marylin Monroe. A paixão de um dos músicos é imediata, afinal de contas, quem não se apaixonaria por Marylin Monroe, no auge de sua beleza, talento e criatividade? Prepare-se para uma comédia de erros esfuziante, muito à frente de sua época, ferina e cheia de sensualidade. Um dos trabalhos mais brilhantes de Wilder, Quanto Mais Quente Melhor tem ainda I Wanna Be Loved By You, cantada com toda a graça pela protagonista. Outro grande destaque, claro, é Jack Lemmon, que vive os momentos mais engraçados de todo o longa – ele inclusive tem de lidar com o assédio de um milionário depravado - um velho deslumbrado pela juvenilidade das moças da banda, mas que demonstra preferências por aquela mais improvável. Tony Curtis completa o elenco(usando de seu charme e talento para conquistar o público). É considerado pelo AFI como a melhor comédia de todos os tempos, ocupando a posição número 25 entre os melhores filmes americanos.
# 23 - A MALVADA (Joseph L. Manckiewicz, 1950)
Desde que a astuta Eve (a ótima Anne Baxter) vislumbra a famosa atriz Margot Channing (a extraordinária Bette Davis) na porta do teatro, faz de tudo para conquistar sua confiança, tornando-se, dentro de pouco tempo, seu braço direito. O que Margot não esperava era que a sensível e doce Eve que ela conhecera em seu camarim se transformaria numa mulher implacável e oportunista, disposta a tudo para conseguir alcançar seu maior objetivo: transformar-se numa atriz ainda mais famosa que sua mentora. Um filme de roteiro extraordinário, que explora toda a sordidez da alma de Eve, a malvada do título brasileiro. Acompanhada por um inescrupuloso George Sanders (vencedor do Oscar), ela manipula todas as situações à sua volta, para que possa tirar benefício das mesmas (quase sempre às custas de chantagem). O desfecho, irônico e reflexivo, mostra com clareza, que, por trás de atitudes solícitas, existe sempre alguém pronto a trapacear. É uma visão pessimista, mas profundamente realista do show biz. A Malvada é até hoje, um dos recordistas de indicações ao Oscar (14 no total), sendo que arrebatou 6 (incluindo Melhor Filme de 1950). Bette Davis está espetacular, neste que é seu melhor papel – impossível não se envolver pelo comportamento quase bipolar de Margot Channing, uma personagem cheia de nuances, e portanto inesquecível.
# 22 – REDE DE INTRIGAS (Sidney Lumet, 1976)
Sidney Lumet fez de Rede de Intrigas um dos mais curiosos filmes sobre a influência da mídia na sociedade moderna. Ambientado numa rede de televisão, o filme parte da história do âncora Howard Bale (o ótimo Peter Finch), que após ser informado de sua demissão, graças ao baixo índice de audiência, avisa, durante a exibição do programa seguinte, que cometerá suicídio. Tal revelação faz com que a audiência cresça de maneira assustadora, e a ideia de demití-lo vai por água abaixo. Numa busca insana por audiência, a diretora de programação (vivida pela brilhante Faye Dunaway) aposta alto em todo e qualquer evento sensacionalista, ferindo de certo modo o código ético de sua profissão (frequentemente lembrado por seu amante, o diretor de jornalismo William Holden). Ambos mantém um relacionamento extra-conjugal, um dos pontos altos do filme, mas se Rede de Intrigas encontra espaço para falar de amor em meio à tanta sujeirada, o roteirista Paddy Chayefski não se omite à sua principal tentativa, que de fato é abrir os olhos dos espectadores sobre o verdadeiro mundo de interesses e trapaças que há por trás dos bastidores. O filme ganhou 4 Oscar 1976 (tremenda injustiça perder o prêmio de Melhor Filme para o politicamente correto Rocky), e curiosamente é a película preferida de Paul Thomas Anderson (quando eu jurava que ele ia acabar preferindo qualquer coisa do Robert Altman).
# 21 - O LEOPARDO (Luchino Visconti, 1963)
A obra-prima de Luchino Visconti (extraordinário diretor italiano, realizador de Rocco e Seus Irmãos, morto há mais de 30 anos) é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais bem estruturados de toda a história do cinema – com trabalhos de direção de arte, figurino e fotografia atingindo o grau máximo da qualidade e (por que não?) da perfeição. É uma adaptação do best-seller autobiográfico do príncipe Giuseppe Tomasi Di Lampedusa (roteiro redefinido pelo próprio Vischonti, que lhe deu tons auto-biográficos). Retrata a queda da aristocracia feudal italiana, substituída pela nova burguesia surgida com a unificação da Itália liderada por Garibaldi. A presença de Burt Lancaster (como O Leopardo) é notável e icônica, neste que é, com vantagem, o melhor trabalho de atuação de sua bela carreira (Burt viveu o general adúltero de A Um Passo da Eternidade). Há ainda dois atores fabulosos (Alain Delon e Claudia Cardinale, belíssimos), que vivem os representantes das duas castas italianas opostas – que se unem pelo bem de suas famílias, almejando avanços na negociação entre nobres e burgueses. Um filme imperdível e absolutamente inesquecível (na mais ampla acepção da palavra).