
Há diversas maneiras de se conceber um filme musical, e à primeira vista tem-se a impressão de que Randall Kleiser optou pelo caminho mais seguro – um romance cheio de clichê e trivialidade, orquestrado por números satisfatórios de música. Mas a grandeza de Grease – Nos Tempos da Brilhantina se estende e vai muito além do óbvio: as músicas são extraordinárias – o verdadeiro diferencial que faz de Grease um dos melhores filmes musicais da história de Hollywood.
Na linha de frente, John Travolta – aproveitando-se ainda do estrondoso sucesso que fizera um ano antes em Embalos de Sábado à Noite. Acompanhando-o com a mesma graciosidade, Olivia Newton-John, em seu trabalho de estreia. Juntos, fazem de seus personagens Danny Zucko e Sandy Olsen a própria materialização do casal-modelo da década de 1950; enquanto ele cobre as madeixas de brilhantina, dança e canta com rebeldia (numa maneira de expressar seu inconformismo), ela cultiva a virgindade e o bom comportamento. Uma atitude contrária, aliás, a transformaria numa mulher mal falada (vide a personagem Betty Rizzo, de Stockard Channing; ela demonstra com muita clareza o preconceito que se tinha sobre garotas que agiam em desacordo com as regras da sociedade machista da época). Neste ambiente quase fabulístico, o amor do casal protagonista é posto à prova; Danny tem vergonha de assumir-se apaixonado, enquanto Sandy espera um posicionamento absolutamente contrário de sua parte.
Seria providencial discutir esta opressão (que no fim das contas acabava atingindo os homens de alguma forma), numa tentativa de transformar o roteiro de Grease em algo de maior profundidade. Mas, se desde o início Randall Kleiser demonstra querer contar uma simples história de amor e comédia, o mais apropriado é que o espectador usufrua dos magníficos números musicais. A começar por Summer Nights, numa abertura delirante (a maioria de nós conhecia a música, só não se lembrava de onde), passando pela engraçada Like Sandra Dee e pelas românticas (e não menos brilhantes) Hopelessly I Devoted To You e Sandy (cantadas com devoção e expressividade apaixonantes), e culminando nas igualmente extraordinárias Greased Lightnin e You’re the One that I Want (esta última celebra a transformação da personagem Sandy, e povoou a mente dos jovens numa versão ridícula de Sandy e Júnior na década de 1990).
Poucas vezes um musical entregou sucessos tão absolutos como estes, que permaneceram no imaginário das pessoas por três décadas – e dão sinal de que jamais ficarão datadas. É claro que o filme dispõe ainda de maravilhosas coreografias (aposto que alguém já reuniu um grupo de colegas para tentar reproduzir Greased Lightnin ou We Go Togheter) e desempenhos vibrantes de todo o elenco (além dos protagonistas ótimos, há também uma série de coadjuvantes muito convincentes). Não é a temática de Grease que deve agradar os cinéfilos, ainda que ela seja bastante simpática; mesmo que tudo tenha sido construído à maneira de um deja vú, a película se impõe como um dos mais divertidos e contagiantes retratos da juventude americana do século XX.
Grease – EUA – 1978 – Direção: Randall Kleiser – Elenco: John Travolta, Olivia Newton-John, Stockard Channing, Jeff Conaway – 110 min – Gênero: Musical
NOTA: 8,0 ![]()
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