Grease – Nos Tempos da Brilhantina

Julho 22, 2009 at 1:36 pm (Filmes: Randall Kleiser, Tenho em casa)

Há diversas maneiras de se conceber um filme musical, e à primeira vista tem-se a impressão de que Randall Kleiser optou pelo caminho mais seguro – um romance cheio de clichê e trivialidade, orquestrado por números satisfatórios de música. Mas a grandeza de Grease – Nos Tempos da Brilhantina se estende e vai muito além do óbvio: as músicas são extraordinárias –  o verdadeiro diferencial que faz de Grease um dos melhores filmes musicais da história de Hollywood.

Na linha de frente, John Travolta – aproveitando-se ainda do estrondoso sucesso que fizera um ano antes em Embalos de Sábado à Noite. Acompanhando-o com a mesma graciosidade, Olivia Newton-John, em seu trabalho de estreia. Juntos, fazem de seus personagens Danny Zucko e Sandy Olsen a própria materialização do casal-modelo da década de 1950; enquanto ele cobre as madeixas de brilhantina, dança e canta com rebeldia (numa maneira de expressar seu inconformismo), ela cultiva a virgindade e o bom comportamento. Uma atitude contrária, aliás, a transformaria numa mulher mal falada (vide a personagem Betty Rizzo, de Stockard Channing; ela demonstra com muita clareza o preconceito que se tinha sobre garotas que agiam em desacordo com as regras da sociedade machista da época). Neste ambiente quase fabulístico, o amor do casal protagonista é posto à prova; Danny tem vergonha de assumir-se apaixonado, enquanto Sandy espera um posicionamento absolutamente contrário de sua parte.

Seria providencial discutir esta opressão (que no fim das contas acabava atingindo os homens de alguma forma), numa tentativa de transformar o roteiro de Grease em algo de maior profundidade. Mas, se desde o início Randall Kleiser demonstra querer contar uma simples história de amor e comédia, o mais apropriado é que o espectador usufrua dos magníficos números musicais. A começar por Summer Nights, numa abertura delirante (a maioria de nós conhecia a música, só não se lembrava de onde), passando pela engraçada Like Sandra Dee e pelas românticas (e não menos brilhantes) Hopelessly I Devoted To You e Sandy (cantadas com devoção e expressividade apaixonantes), e culminando nas igualmente extraordinárias Greased Lightnin e You’re the One that I Want (esta última celebra a transformação da personagem Sandy, e povoou a mente dos jovens numa versão ridícula de Sandy e Júnior na década de 1990).

Poucas vezes um musical entregou sucessos tão absolutos como estes, que permaneceram no imaginário das pessoas por três décadas – e dão sinal de que jamais ficarão datadas. É claro que o filme dispõe ainda de maravilhosas coreografias (aposto que alguém já reuniu um grupo de colegas para tentar reproduzir Greased Lightnin ou We Go Togheter) e desempenhos vibrantes de todo o elenco (além dos protagonistas ótimos, há também uma série de coadjuvantes muito convincentes). Não é a temática de Grease que deve agradar os cinéfilos, ainda que ela seja bastante simpática; mesmo que tudo tenha sido construído à maneira de um deja vú, a película se impõe como um dos mais divertidos e contagiantes retratos da juventude americana do século XX.

Grease – EUA – 1978 – Direção: Randall Kleiser – Elenco: John Travolta, Olivia Newton-John, Stockard Channing, Jeff Conaway – 110 min – Gênero: Musical

NOTA: 8,0 

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Nosferatu

Julho 20, 2009 at 1:21 pm (Cinema mudo, Críticas, Filmes: F.W. Murnau)

Para aquele que sempre teve a curiosidade de assistir um filme mudo - mas não imagina por qual título começar – a película expressionista Nosferatu, de F.W. Murnau pode ser a opção ideal. Há algo de místico e impactante nesta produção de 1922, o que a qualifica como uma das experiências mais curiosas que a sétima arte já foi capaz de proporcionar.

Livremente inspirada na obra secular de Bram Stoker, Drácula, o filme relata a história de Hutter (Gustav von Wangenheim), um jovem agente imobiliário que recebe como tarefa visitar o conde Graf Orlok (Max Schreck), residente dos Montes Cárpatos, afim de intermediar a compra de uma casa para o mesmo em Bremen, na Alemanha. O que ele não esperava era encontrar uma criatura sinistra (com uma temível aparência) e ainda sedenta por sangue humano. Mais tarde, ainda, o conde tentará sugar o sangue da noiva virgem de Hutter, Ellen (Gretta Schroeder).

Assistir a um filme mudo e em preto-e-branco, numa era dominada por efeitos especiais avassaladores parece ser o exemplo mais claro de concorrência suja e desleal. Porém, para os verdadeiros cinéfilos, Nosferatu será capaz de surpreender e arrancar verdadeira sensação de espanto. A começar peça caracterização de Schreck, que no papel do conde Orlok mais lembra um roedor branco e grotesco (seu personagem, aliás, é perseguido sistematicamente por ratos igualmente imundos e famintos, numa busca doentia por qualquer rastro de sangue). Em contrapartida, a beleza impessoal do casal protagonista (Schroeder e von Wangenheim são igualmente pálidos, mas possuem o viço e a vitalidade que faltam na vida do conde) expõe com extrema clareza o contraste entre o herói idealizado e o monstro cruel e repugnante.

Atrás da câmera, a experiência do fabuloso e lendário Murnau, um diretor especializado em películas do gênero (vide o ótimo Aurora, seu primeiro filme americano). Explorando apenas a luz e a sombra (elementos básicos para os filmes sem cor), Murnau cria uma espécie de jogo visual delirante, capaz de envolver quem assiste Nosferatu num ambiente ao mesmo tempo lírico e assustador. O filme, todo conduzido por uma trilha sonora funesta, dispõe ainda de cenas antológicas, como: o momento em que Ellen acompanha um féretro através de uma janela; a chegada de Hutter nos montes Cárpatos (uma carroça quase desgovernada o apanha e ele se surpreende ao perceber que ninguém a está guiando); Hutter se cortando com uma faca e o conde, selvagemente, lhe sugando o dedo; e o desfecho, uma das mais famosas e impactantes cenas já concebidas pelo cinema-mudo. Enfim, Nosferatu permanece na memória de quem o vê por diversos motivos – e a figura medonha de Schreck contra o vidro de uma casa(espiando a brancura e pureza de Schroder, à espera do momento exato para sugar-lhe o sangue) permanece amedrontando o mundo. Esta é, sem dúvida, a criatura mais próxima daquela idealizada por Bram Stoker há 100 anos, e, portanto, a única realmente inesquecível.

Nosferatu, eine Symphonie des Grauens – ALE – 1922 – Direção: F. W. Murnau – Elenco: Max Schreck, Gustav von Waggenheim, Greta Schroder, G. H. Schnell – 72 min – Gênero: Terror

NOTA: 8,5 

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Em Busca da Terra do Nunca

Julho 7, 2009 at 1:20 pm (Tenho em casa)

Não é novidade apanhar o DVD de Em Busca da Terra do Nunca e acreditar que o filme é mais uma adaptação malfadada da história de Peter Pan. Com Johnny Depp e Kate Winslet na capa, então, acabamos pensando que os dois tiveram a coragem de interpretar Peter e Wendy. Mas a história deste extraordinário filme de Marc Forster é bem mais do que o clássico infantil. É a verdadeira trajetória de J.M. Barrie, o dramaturgo inglês responsável pela criação do herói infantil e seu envolvimento com Lady Sylvia Lwellyn, uma viúva solitária e mãe de cinco filhos. A proximidade dos dois gerou completa repugnância na sociedade da época, mas a relação de amizade e amor que Barrie construiu com a mulher e os meninos foi a centelha necessária para que enfrentasse a crise de criatividade por qual passava - e lançasse ao mundo sua obra mais terna e encantadora: Peter Pan.

Toda a grandeza deste filme se apoia em seu elenco afinadíssimo, que parte do sempre inspirado Johnny Depp, passa por notáveis Kate Winslet e Freddie Highmore e termina em convincentes Dustin Hoffman e Julie Christie. Claro que a docilidade do roteiro de David Magee (adaptado de peça teatral de Alan Knee) contribui para alicerçar Em Busca da Terra do Nunca, mas não consigo imaginar o sucesso  para um filme que transita a todo instante entre a comédia e o melodrama – se ele não dispõe de um grupo de atores realmente preparado para o desafio. As performances são verdadeiros espétaculos, capazes de ofuscar até mesmo a impressionante parte técnica – o que qualifica a obra de Forster como o melhor trabalho de elenco em seu ano de lançamento (superando até mesmo os estimados O Aviador e Sideways, este último dono de um furor totalmente desnecessário).

Surpreende como Em Busca da Terra do Nunca encontrou espaço entre os 5 melhores filmes de 2004, especialmente pela simplicidade e objetividade de seu conjunto (coisa que viria a se repetir mais tarde com os ótimos Pequena Miss Sunshine e Juno). Mas a impressão que se tem ao final da sessão é pura e simples: um filme com tantos sentimentos nobres, que não se ocupou em discutir personalidades exdrúxulas ou abordar dramas devastadores, é sim suficientemente grande para se destacar entre seus concorrentes. Em Busca da Terra do Nunca não é apenas um dos melhores filmes de 2004, é o filme mais inspirador da brilhante carreira de Forster – e um dos melhores desempenhos de Johnny Depp

Finding Neverland – ING – 2004 – Direção: Marc Forster – Elenco: Johnny Depp, Kate Winslet, Freddie Highmore, Dustin Hoffman, Julie Christie – 106 min – Gênero: Drama

NOTA: 8,0 

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Valmont – Uma História de Seduções

Julho 5, 2009 at 4:00 pm (Filmes: Milos Forman, Tenho em casa)

Se adaptar para o cinema a obra de Choderlos de Laclos, Les Liaissons Dangereuses, parecia obra quase impossível (dado o conteúdo epistolar do livro) – Stephen Frears provou com todas as letras que não só era possível como também bastante rentável: o filme Ligações Perigosas, lançado em 1988, arrebatou diversas indicações ao Oscar e acumulou uma notável bilheteria pelos quatro cantos do mundo. Mas parte do público (especialmente aquele mais jovem) levantou uma questão intrigante: como um livro essencialmente sensual e voluptuoso podia ser adaptado de maneira tão acadêmica – excluindo deliberadamente o sexo do plano central?

Milos Forman parecia ter a resposta. Quando lançou Valmont – Uma História de Seduções, em 1989, queria atender os anseios desta fatia de público. Optando por um elenco bastante jovem e sensual (trocando Glenn Close e John Malcovich por Annete Bening e Colin Firth), o diretor tcheco explorou com extrema sabedoria seu novo recurso. Se a história acompanha fielmente o roteiro de Ligações Perigosas (diferindo em poucas passagens, especialmente no que diz respeito à personagem Cecile de Volanges, que ganha aqui um tratamento especial), é absolutamente diferente quanto ao ritmo. Forman faz da juventude de seus atores um ponto alto para criar uma narrativa mais fática e agilizada que àquela requintada e lenta do filme de Frears. Por outro lado, o talento de Annete Bening e Colin Firth (que viviam o auge de seus 30 anos) deixa a desejar quando comparado ao de seus precursores. Outra que apresenta um desempenho ruim (e ainda pior, que chega ao desastre), é Megg Tilly, num papel antes dado à ótima Michelle Pfeiffer. Já em termos visuais, o filme nada perde em relação ao antecessor – já que o luxo e o cuidado prestados à direção de arte e figurinos levaram os mesmos a serem lembrados na festa do Oscar daquele ano.

A direção de Forman consegue segurar o interesse do espectador – auxiliado, claro, pelo roteiro, que trata de nobres ociosos dispostos à tudo para arruinar a reputação de antigas desavenças. O filme também fala (ainda que muito superficialmente) do amor de Firth e Tilly, que acaba transformando Valmont numa película curiosa, que desfila entre a sentimentos sólidos como o amor e efêmeros, como os desejos sexuais. É praticamente impossível evitar comparações entre este e Ligações Perigosas, mas se isto for feito de fato (observando com cuidado cada plano), a produção de Milos Forman perde em quase todos os quesitos.

Valmont – FRA/ING – 1989 – Direção: Milos Forman – Elenco: Colin Firth, Annete Bening, Meg Tilly, Fairuza Balk, Fabia Drake – 133 min – Gênero: Drama

NOTA: 5,0 

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