A Princesa e o Plebeu

Agosto 31, 2009 at 1:53 pm (Filmes: William Wyler, Tenho em casa)

Difícil dizer que ainda gostamos de histórias de Cinderella. Na infância, tudo parecia mais aceitável (e assimilável), de maneira que uma simples história de amor – embutida com uma boa e velha comédia de erros -  era suficiente para nos arrancar aplausos calorosos. Mas, combinemos: há algo de poderoso em enredos simplórios, especialmente quando conseguem trabalhar à máxima com nossas emoções. Não exigimos grandes acontecimentos (tampouco segredos abaixo da superfície). Se há um conjunto de atores excepcionais, uma história encantadora e ambiente fabulístico, entramos de cabeça na proposta. E foi com esse espírito que A Princesa e o Plebeu transformou-se num dos mais adoráveis trabalhos da década de 1950.

A simpática tradução brasileira resume bem a obra de William Wyler (o lendário diretor de Ben-Hur): uma nobre européia (vivida por Audrey Hepburn) está profundamente enfadada com os cerimoniais que tem de cumprir em Roma, e fugindo de seus supervisores (verdadeiros cães de guarda), aventura-se sozinha pelas ruas da capital italiana. É quando o destino coloca-a diante de John Bradley (Gregory Peck), um jornalista americano (e o plebeu do título). Ele tentará tirar proveito da situação - atrás de um furo de reportagem que alavanque de vez sua carreira; mas uma súbita paixão (claro) o fará rever muitos de seus conceitos. Percebe-se, então, que existe uma história de Cinderella às avessas. Uma aristocrata entediada, que ao mandar às favas um cerimonial, descobre o lado simples e insubstituível que a vida tem a oferecer (ao lado de um profissional comum e endividado).

A história é um tanto batida, devo admitir. Mas há um magnetismo impressionante, que cresce a cada tomada, e rouba nossa atenção de modo notável. Uma curiosidade é que o responsável pelo roteiro, Dalton Trumbo, foi perseguido pelos estúdios americanos na década de 1950 - pois era comunista e adepto do macarthismo. Obviamente entrou para a lista negra de Hollywood, num momento em que a América vivia o auge da Guerra Fria. Concebeu esta deliciosa comédia romântica na clandestinidade (aceitando que o crédito ficasse com o amigo, Ian McLellan Hunter), e acabou sendo justiçado décadas mais tarde, quando o assunto deixara de ser tabu. Hoje, todos sabemos que este roteiro gracioso e muito acessível (vencedor do Oscar) surgiu das mãos e da mente de Trumbo, um homem disposto a emocionar com a simplicidade que se entretém uma criança.

Há mais encantos? Óbvio. O filme está repleto deles. Vale ressaltar a presença da extraordinária Audrey Hepburn, que tem aqui seu papel de estreia em Hollywood. Sua caracterização é extremamente cativante, com trejeitos sofisticados e ingenuidade absoluta, quase pueril. Impossível não se identificar com os anseios de sua personagem, e muito menos não se apaixonar por sua beleza e doçura, que irradiam pela tela a cada minuto. Audrey recebeu um Oscar por esta composição, e William Wyler teve noção de que, a partir daquele momento, uma das mais queridas atrizes da história de Hollywood dava os primeiros passos em direção à eternidade. Há ainda o desempenho de Gregory Peck (não exatamente uma grande atuação), que cumpre a tarefa com charme e serenidade  inconfundíveis.  Na verdade, o personagem masculino que mais se destaca é Eddie Albert (indicado ao Oscar), hilário no papel do cinegrafista que acompanha o casal pelas ruas de Roma (este é outro ótimo ponto do longa, já que A Princesa e o Plebeu foi todo filmado em locação, aproveitando toda a magnificência da arquitetura romana, do Coliseu à Fontana de Trevi).

Enfim, não há como fazer-se indiferente ao frescor e à pureza desta história imortal. Seja pela famosa cena em que Audrey e Peck atravessam Roma sobre o banco de uma lambreta (destruindo tudo o que veem pela frente) ou ainda pelo beijo romântico que ambos trocam à margem de um lago (depois de provocarem uma divertida confusão numa festa popular), A Princesa e o Plebeu vai sempre marcar quem o assiste de algum jeito – e continuará gozando de sua reputação indelével por várias gerações. 

Roman Holiday – EUA – 1953 – Direção: William Wyler – Elenco: Audrey Hepburn, Gregory Peck, Eddie Albert – 118 min – Gênero: Romance

NOTA: 8,5 

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Cena de Cinema (4)

Agosto 29, 2009 at 2:31 pm (Cena de Cinema)

Minha única recomendação acerca de A Doce Vida, obra-prima do italiano Federico Fellini, é a seguinte: não assista-o apenas uma vez. Tive o despautério de classificá-lo como um filme mediano na primeira sessão, opinião que caiu por terra após uma detalhada (e muito mais apreciativa) revisão. E se, mesmo assim, você não gostar do filme (algo que considero impossível), pelo menos deleite-se com a sequência mais bela de toda a película: a atriz americana Sylvia (Anita Eckberg) passeia com um gatinho pelas ruelas de Roma, quando num repente, decide se banhar na mais bela fonte da cidade, a Fontana de Trevi. Um momento icônico e inesquecível do cinema italiano.

Outras cenas: Segundas Intenções; Crash – No Limite; O Iluminado.

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Top 10: Actor in a Leading Role

Agosto 25, 2009 at 10:28 pm (Ranking A Grande Arte, Top 10: Ator)

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10 - JACK NICHOLSON (O Iluminado, 1980)

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09 - ROBERT DeNIRO (Touro Indomável, 1980)

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08 - ANTHONY PERKINS (Psicose, 1960)

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07 – PETER LORRE (M., O Vampiro de Dusseldorf, 1931)

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06 – JAMES STEWART (A Mulher Faz o Homem, 1939)

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05 – DANIEL DAY-LEWIS (Sangue Negro, 2007)

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04 - RAY MILLAND (Farrapo Humano, 1945)

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03 – LAURENCE OLIVIER (Hamlet, 1948)

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02 – ROBERT MITCHUM (O Mensageiro do Diabo, 1955)

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01 – MARLON BRANDO (Uma Rua Chamada Pecado, 1951)

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O Guarda-Chuvas do Amor

Agosto 23, 2009 at 8:18 pm (Filmes: Jacques Demy, Tenho em casa)

Muitos brasileiros reconhecem o filme O Guarda Chuvas do Amor como o algoz de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Em 1964, ambos concorriam à Palma de Ouro, e quando nada parecia páreo à genialidade de Glauber Rocha, a obra-prima de Jacques Demy saiu com os principais prêmios do Festival de Cannes. Definir este trabalho como o mais curioso musical já feito não é nenhum exagero: O Guarda Chuvas do Amor não se contenta com meia dúzia de bons números musicais inseridos no roteiro. As emoções de seus personagens são tão extravagantes que não cabe cantar apenas em determinadas partes da obra; o filme é música do primeiro ao último ato.

Isso significa, a grosso modo, que os diálogos são totalmente musicados (ou seja, os atores cantam ao invés de declamar o texto). O efeito desta inovação técnica é adorável – e mesmo parecendo absolutamente estranha nos primeiros minutos, logo fascina e mantém a atenção nos 90 minutos seguintes. Catherine Deneuve interpreta Geneviéve Emery, uma adolescente de 17 anos que mora em Cherbourg, norte da França. Sua rotina é monótona (visto que trabalha com a mãe numa loja especializada em guarda-chuvas), e os melhores momentos do dia são aqueles passados ao lado de seu namorado, o mecânico Guy (Nino Castelnuovo). Há uma pequena diferença social entre ambos, mas isto não os incomoda; desperta, na verdade, a atenção da mãe de Geneviéve (Anne Vernon). A mulher acredita que a filha precisa casar-se com um milionário, afim de espantar uma dívida considerável que as rodeia. Mas a garota insiste em continuar ao lado de Guy, dispensando, inclusive, os galanteios de um jovem apessoado e de boa condição financeira (Marc Michel). O destino, porém, coloca a Guerra da Argélia entre o romance dos dois, e Guy parte para o front (numa sequência emocionalmente devastadora e lindamente dirigida). Logo depois, Geneviéve descobre-se grávida, e diante da falta de notícias do namorado (que luta pela França durante dois anos) acaba cedendo à pressão do personagem de Michel.

O roteiro, aparentemente desgastado, encontra momentos de pura emoção ao tratar da solidão de Geneviéve (ela não tem amigos e recebe poucas manifestações de carinho da mãe). A incerteza da sobrevivência de Guy, então, consome aos poucos sua esperança, de modo que ela se torne uma pessoa amargurada e profundamente infeliz. A atuação de Deneuve (então com 20 anos) é sensível e tocante, transmitindo à quem assiste ao filme toda a dor de sua personagem - e melhor, em dose superlativa. Não há dúvidas de que ela seja o destaque da película (ainda que os outros atores consigam bons desempenhos, cantando o roteiro de maneira muito convincente). Outra vertente admirável deste filme está na parte técnica, com direção de arte absolutamente vistosa (de Bernard Evein), fotografia perfeitamente enquadrada (de Jean Rabier) e trilha sonora melodiosa e inesquecível (composta pelo lendário Michel Legrand). O filme recebeu indicações ao Oscar em todas estas categorias, além de uma para o roteiro (história original do próprio Demy) e filme estrangeiro.

O Guarda Chuvas do Amor é, dentro de seu gênero, uma obra única e inimitável. Nenhum outro musical, hollywoodiano ou não, arriscou (e dificilmente arriscará) estrutura tão incomum. Atenção especial para o desfecho, numa sequência pequena, mas de delicadeza e ternura genuínas – com efeito emocional  inesperado e incomparável. Ela mostra que não há como fazer-se indiferente às decisões do destino, mesmo que a dor que assola o coração da heroína (dor que também irá atacar Guy no momento oportuno) pareça anestesiada. Jacques Demy conseguiu, sim, construir uma pequena obra-prima do cinema francês (não merecedora do prêmio sobre Deus e o Diabo na Terra do Sol), mas suficientemente inteligente e poderosa para fazer jus aos importantes prêmios que carrega na bagagem. 

Les Parapluies de Cherbourg – FRA – 1964 – Direção: Jacques Demy – Elenco: Catherine Deneuve, Nino Castelnuovo – 90 min – Gênero: Musical

NOTA: 8,5 

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O Sol é Para Todos

Agosto 20, 2009 at 2:47 pm (Filmes: Robert Mulligan, Tenho em casa)

Poucos filmes americanos gozam de tanta reputação como O Sol é Para Todos. Concebido em 1962, pelo roteirista Horton Foote, a película é uma adaptação da obra vencedora do Pulitzer, To Kill a Mockingbird, escrita pela dramaturga Harper Lee. Com o toque certeiro e a mão firme do diretor Robert Mulligan, o filme encontrou o tom de que precisava. O Sol é Para Todos se vende como uma obra sentimental (e para alguns pode parecer envelhecida) – mas enquanto trabalha com as emoções do espectador, praticamente atinge a perfeição.

Os personagens estão vivendo os efeitos da Grande Depressão, que teve seu ápice nos primeiros anos da década de 1930. A vida não é fácil para nenhum dos moradores da pequena cidade, situada no Alabama, sul dos Estados Unidos (local famoso pela defesa de ideiais que muitos americanos consideram antiquados). Todos os munícipes procuram se adaptar às dificuldades e resistir às privações. A abertura do filme evidencia com precisão este episódio, quando um homem bate à porta do advogado Atticus Finch (Gregory Peck), para lhe dar um saco de nozes. A colheita serve como parte do pagamento de uma causa antiga. A pequena filha de Finch, Scouty (Mary Badham) e o irmão mais velho, Jem (Philip Alford) atendem o homem e insistem para que ele espere pelo pai; mas o outro parece estranhamente constrangido e envergonhado. Realmente. Ninguém espera receber nozes ao invés de dinheiro, mas Atticus compreende a situação que atinge seus conterrâneos. E melhor: compreende que o caráter do tal homem é grande demais para que ele deixasse de recompensá-lo de alguma forma. Mesmo que sua riqueza fosse representada por nozes.

Se à primeira vista temos a impressão de que O Sol é Para Todos é um drama sobre a pobreza (papel mais cabível ao ótimo Vinhas da Ira), somos pegos de surpresa nas próximas cenas. Todo o ambiente é visto sob a ótica de três crianças (os dois filhos de Atticus e um amigo, Dill). E sob este prisma, o filme se transforma num sensível e tocante relato sobre a infância, procurando revelar toda a sorte de alegrias e dramas que preenchem esta fase da vida. É uma infância saudosa, quando ainda se podia brincar nas ruas sem riscos maiores que quebrar um braço; quando se podia bisbilhiotar os vizinhos e criar histórias mirabolantes a respeito deles; quando as férias escolares eram aproveitadas à sua máxima; e quando uma pequena cidade nos parecia suficiente para viver o resto da vida. Mas, depois de um dia intenso de diversão, os filhos de Atticus também confrontavam seus problemas pessoais. O pai sempre chega do trabalho (que é o fórum da cidade) à noite, e esse é  período que eles têm para ficar juntos. Há ainda a morte da mãe, anos antes, algo que incomoda e machuca-os bastante. Mas Atticus reserva o pouco tempo que tem livre para estar perto de seus filhos, e faz dos encontros em família momentos de muita paz e felicidade.

Gregory Peck sabia que ia interpretar um homem acima de qualquer suspeita quando aceitou o convite de Mulligan (algo muito comum em sua vasta e admirável carreira). Atticus Finch foi eleito pelo AFI como o maior herói do cinema americano (e não era para menos!): além de cuidar da educação de duas crianças muito jovens, ele ainda dedica muito carinho à sua profissão. E o roteiro explora isto com muita riqueza, ao colocá-lo diante de um caso de estupro ocorrido há alguns dias na redondeza. Um negro é acusado de molestar a filha branca de um fazendeiro local, e toda a população é contrária à sua inocência (isto é acentuado pelo preconceito enraizado nas sociedades sulistas do sul dos EUA, que nitidamente tinham resistência em se nivelar aos negros). Atticus, porém, é designado para a tarefa (recusada por diversos outros advogados), e mesmo sem a aprovação de seus conterrâneos, luta com dignidade para garantir a liberdade de seu cliente. Numa passagem inesquecível, ele se prostra na porta da delegacia da cidade, afim de evitar que homens enfurecidos (munidos de armas e pás) agridam o negro. E o mais engraçado: sua atitude é somente simbólica, já que nenhum deles parece respeitar a vontade do advogado (mostrando-se, na verdade, ainda mais decididos a invadir a cadeia). Porém, o súbito aparecimento da filha de Atticus (num monólogo terno e memorável, que expõe todo o talento de Mary Badham, indicada ao Oscar) acaba fazendo a diferença.

Talvez hajam defeitos na estrutura de O Sol é Para Todos, e o mais comumente citado é o que se passa no abafado tribunal – quando detahes intrínsecos ao caso são esclarecidos, de maneira significativamente lenta. Mas, em momento algum, isto compromete o resultado final. Há diversos pontos estupendos a se ressaltar neste filme: a ótima atuação de Gregory Peck, que lhe rendeu o Oscar; a lírica e melodiosa trilha sonora de Elmer Bernstein; a cuidadosa e bela direção de arte de Henry Bumstead; e claro, as apaixonantes performances das crianças e do elenco de apoio (que tem o ator Robert Duvall em sua estreia no cinema). É uma produção que transborda bons sentimentos, e que mexe com nossas emoções mais profundas. A narrativa (efetuada por Scouty, já na fase adulta) demonstra o quão Atticus foi importante para transformá-la numa pessoa de valores. Num momento belíssimo da produção, um negro, agradecido pela coragem do advogado, diz à Scouty: “levante, menina, seu pai está passando”. E quem não se sentiria honrado em fazer mesura à um homem tão íntegro?

To Kill a Mockingbird – EUA – 1962 – Direção: Robert Mulligan – Elenco: Gregory Peck,  Mary Badham, Philip Alford, Robert Duvall– 129 min – Gênero: Drama

NOTA: 9,0 

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