Dias de Paraíso

Setembro 27, 2009 at 2:13 pm (Filmes: Terrence Malick, Tenho em casa)

Terrence Malick é visto em Hollywood como um diretor de projetos muito pessoais. Desde sua estreia, em 1973, à frente do ótimo Terra de Ninguém, este texano mostrou interesse num segmento considerado bastante antiquado – a julgar por outros nomes de sua geração, como Martin Scorcese. Malick era adepto de um cinema absolutamente contemplativo, no qual o ambiente se revelava como um personagem vivo e atuante. Em Dias de Paraíso, seu segundo longa, isto é mais que evidente: toda a ação se ambienta nas pradarias americanas, em meio à dourados, infindáveis e belíssimos campos de trigo. É a América ruralista, comandada por um grupo de homens prósperos – mas movida por uma classe trabalhista e extremamente humilde. Tal estrutura, muito comum no cinema de John Ford (um dos cineastas que mais se preocuparam em narrar as agruras da vida no campo) deu inspiração à Malick - e ele faz destes detalhes a matéria-prima que dá vigor à Dias de Paraíso.

O filme se inicia em Chicago, e acompanha a trajetória de Bill (Richard Gere), um metalúrgico que perde o emprego após uma discussão com seu superior. O temperamento de Bill é preocupação constante de sua companheira Abby (Brooke Adams), a quem ele apresenta como sua irmã. Ambos têm, ainda, a companhia da jovem Linda (Linda Manz), que também é responsável pela narração de toda a história. Sob a ótica pueril e sonhadora de Linda, acompanhamos o êxodo de milhares de trabalhadores (rejeitados pela metrópole) em direção aos campos de trigo texanos. É um momento brilhantemente acompanhado por Malick, que desnuda as diferenças sociais gritantes que separam ostrabalhadores da classe rica dominante (esta diferença é perfeitamente representada pela mansão imponente encerrada sobre as lavouras). Gere e Adams encontram um dia duro de trabalho pela frente, ao preço de 3 dólares. Mas a beleza da mulher, porém, atrai os olhares de um dos patrões (Sam Shepard, no papel do jovem idealista). Dias depois, o homem propõe casamento à Abby – e ela aceita sob a condição de ver seus “irmãos” Gere e Manz sendo igualmente sustentados.

A história caminha para um triângulo amoroso, descoberto aos poucos (e sobre profundo estarrecimento de Shepard, que realmente acreditava que a relação de sua esposa com Bill era puramente fraternal). Mas o envolvimento afetivo entre a mulher e seus dois pretendentes é o que menos importa em Dias de Paraíso. Raras vezes o cinema entregou um trabalho de fotografia tão primoroso (creditado à Nestor Almendros e vencedor do Oscar). Haskell Wexller (o ótimo fotógrafo de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?) chegou a exigir que seu nome fosse colocado à frente de Almendros, alegando maior participação nos trabalhos, mas os produtores Bert e Harold Schneider preferiram lançá-lo como fotógrafo assistente. Contudo, o deleite visual deste filme supera qualquer polêmica. Seja por momentos em que o vento avança sobre a imensa lavoura (acentuando o brilho luminoso dos trigueirais) ou pelo céu azul e límpido que cobre a vastidão dos campos (e que é importunado, de quando em quando, por nuvens de chuva lindamente ameaçadoras), Dias de Paraíso não deixa nenhum espectador imune à sua beleza plástica. Há ainda ótimos pontos a ser destacados neste filme sensível: a melodiosa, clássica e dramática trilha sonora de Ennio Morricone (num momento sublime de sua carreira), o roteiro ágil e repleto de simbolismos do próprio Malick (que atinge um patamar evocativo, tristonho e existencial notáveis) e, claro, o desfecho amargo e profundamente realista, que parece fazer-nos acordar do sonho fascinante que acompanhávamos há pouco mais de 90 minutos. Um filme poético que merece ser visto, ouvido, e (especialmente) sentido.

Days of Heaven – EUA – 1978 – Direção: Terrence Malick – Elenco: Richard Gere, Brooke Adams, Sam Shepard, Linda Manz – 95 min – Gênero: Drama

NOTA: 8,0 

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Juventude Transviada

Setembro 24, 2009 at 2:49 pm (Filmes: Nicholas Ray, Tenho em casa)

A década de 1950 ficou marcada na História como um período de sensíveis mudanças nos alicerçes que compunham a sociedade americana – algo que se estendeu por mais de 20 anos, e que encontrou uma diminuição notável nos primeiros anos da década de 1980. Com todos os setores sendo potencialmente atingidos, o cinema talvez tenha sido um dos que mais sofreram tais efeitos. Nicholas Ray (que vinha de um poderoso e aclamado trabalho em Hollywood, Johnny Guitar) arriscou-se à frente daquele que seria, com toda certeza, o mais influente trabalho sobre o tema. Juventude Transviada representou a centelha que faltava ao inconformismo explicitado na maioria dos jovens daquela época, que não só ansiavam a liberdade propriamente dita, mas também a necessidade de descobrir o que havia abaixo de suas superfícies.

Jim Stark (interpretado magistralmente por James Dean) é um jovem problemático que traz consigo um histórico notável de encrencas com a polícia. Na abertura do longa (regida pela ótima trilha sonora de Leonard Rosenamn), ele está literalmente jogado na rua, divertindo-se abobadamente com um boneco, quando ouve o ruído de algumas sirenes. É capturado e levado à delegacia, onde presta esclarecimento ao oficial chefe , enquanto aguarda os pais.  Frank e Carol Stark divertiam-se num baile quando foram avisados, e mais uma vez lamentam pelas escolhas do filho. Num breve diálogo entre os três, tomamos noção de que não é a primeira vez que os pais tentam, em vão, livrá-lo de situações daquela natureza. E pior, quando se sentem completamente impotentes diante das atitudes de Jim, agem como nômades. Mudam de cidade, de residência – numa tentativa imatura de sepultar os problemas. Porém, não é o bastante. Algo parece não se encaixar. Jim se transformou num garoto febrilmente atraído pela marginalidade.

Primeiro ponto positivo do longa: atentar que a delinquência juvenil não é privilégio dos destituídos. Se bem que, analisando por este prisma, percebemos o quão destituídos são os adolescentes de Juventude Transviada. Não em caráter financeiro, pois todos estão muito bem posicionandos socialmente. Falta-lhes algo ainda mais elementar: a aceitação da própria realidade. Não é curioso observar a cena em que Dean e Natalie Wood (que interpreta Judy, sua futura namorada) se conhecem, diante de suas casas. Ele pergunta: “você vive aqui?”. Ela devolve: “quem vive?”. Não fosse tão trágica, talvez a situação destes jovens provocasse desdém. Todos são sustentados pelos pais, possuem regalias típicas das famílias americanas mais abastadas; mas assistem, a cada dia, a deterioração do modelo de vida pregado por suas famílias. Já não existe confiança em dividir nenhum de seus problemas com os pais – embora a personagem de Wood busque na figura paterna a proteção que lhe parece faltar diante de uma turma tão selvagem de amigos (os quais ela despreza, mas aceita imitar). Há outro grande personagem em Juventude Tranviada (e que fecha o trio): Plato (vivido por um excelente Sal Mineo), jovem rejeitado pela família e pelos colegas, que sobrevive às custas de uma pensão que o pai milionário o envia de quando em quando. Mas o vazio emocional que o assola também parece incurável – e se manifesta através de torturas que o mesmo inflige a cães igualmente irracionais (!). Mas na figura de Jim, Plato encontra os primeiros sinais de compatibilidade. Por ser novato, Dean enfrenta a rejeição de toda a turma, e se vê sufocado ao menor gesto de amizade – algo que Plato conhece muito bem.

A certa altura, a vida dos três se converge – e descamba numa atitude bela e puramente simbólica (quando resolvem viver  juntos numa mansão abandonada, que se situa sobre as colinas arborizadas que circundam Los Angeles). Eles decidem atender às próprias vontades, livrando-se, mesmo que temporariamente (o que é evidenciado pelo desfecho sombrio) das pressões cruéis que a sociedade exerce. E, embora todos os atores representem seus personagens com louvor, o grande destaque vai para James Dean, que foi simplesmente imortalizado como “o rebelde sem causa”, numa composição icônica e memorável. Por toda uma geração, o ator serviu como uma espécie de canal humano, ao qual um segmento interminável de jovens perdidos procurou se espelhar. Contudo reitero: o mérito deve ser dividido com Nicholas Ray. Captar uma fase tão particular da América contemporânea (e imbuída de tanta crueza) é tarefa no mínimo desafiadora. Um desafio cumprido da maneira mais exemplar.

Rebel Without a Cause – EUA – 1955 – Direção: Nicholas Ray – Elenco: James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo, Dennis Hooper – 111 minGênero: Drama

NOTA: 9,5 

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O Parque dos Dinossauros

Setembro 22, 2009 at 3:07 pm (Filmes: Steven Spielberg, Tenho em casa)

Admitam ou não, Steven Spielberg é um grande diretor. Na minha opinião, o melhor de todos os diretores. A capacidade deste profissional em lidar com blockbusters é inegável, e desde 1985 (quando se enveredou na direção de A Cor Púrpura), provou que também tinha talento para reger produções mais maduras. Mas se neste tipo de longa Spielberg encontrou algumas limitações (absolutamente superadas ao longo dos anos), dirigindo filmes como O Parque dos Dinossauros, demonstrou domínio esplêndido da técnica. Esta produção de 1993 não é apenas o melhor filme sobre dinossauros – é também um dos mais impressionantes exemplares do cinema fantástico, uma pérola injustamente esnobada por muitos (especialmente por incontáveis exibições na Sessão da Tarde).

Steven Spielberg mexeu com os sonhos da Humanidade ao propor o reaparecimento dos dinossauros na Terra, através da extração de DNA conservado em âmbar fóssil. Um milionário (intepretado por Richard Attenborough) financia as pesquisas e e encerra todos os répteis numa ilha do Atlântico Sul. Uma sequência de desastres (que vai desde o roubo de embriões à uma tempestade tropical) faz com que o fornecimento de energia das cercas seja interrompido, e diversos dinossauros carnívoros (incluindo o temível Tiranossauro Rex) ficam à solta. Baseado no best-seller de Michael Crichton (que também colaborou na construção deste roteiro fabuloso), Jurrasic Park surgiu num período em que o cinema já dispunha de muita tecnologia – mas que poucas vezes ousara utilizá-la em tamanha escala. Após a produção desta maravilha, houve uma poderosa revolução dentro do gênero (talvez comparável à 2001, Uma Odisséia no Espaço), algo que exigiu que todos os sucessores fizessem, pelo menos, uma longa mesura à inquestionável qualidade técnica do longa.

Quem assistiu à Jurassic Park sabe que poucas vezes (para mim, nunca) o cinema ofereceu um filme tão brilhante dentro de sua proposta. Não há elementaridades, nem entrelinhas, nem existencialismo; há apenas a clara intenção de divertir platéias do mundo inteiro (isto se prova na vultosa bilheteria de 915 milhões de dólares), com o uso de fabulosos efeitos especiais (os dinossauros são impressionantes para a época), muita ação e aventura. Há ainda um grupo eclético e divertido de personagens (o paleontólogo resmungão e sua doce e bela esposa, as crianças curiosas, o funcionário ganancioso, o matemático convencido e humorado, etc) que se faz indispensável neste tipo de produção. Jurrasic Park é uma coleção de cenas arrebatadoras (a perseguição do carro pelo T-Rex, os velociraptors na cozinha, o duelo final entre as espécies carnívoras, entre tantas outras). A trilha sonora espetacular de John Williams (uma das melhores do cinema) completa o painel, orquestrado com toda categoria por Spielberg. Há momentos em que nada mais é preciso num filme, que senão divertir-nos verdadeiramente, reservando tensão, sustos, e claro, o deleite visual que a tecnologia de Hollywood pode oferecer.

Todavia, os esnobes não devem usar tais detalhes (especialmente ao fato de o filme ser um blockbuster nato) para menosprezar a grandeza deste épico contemporâneo. Steven Spielberg é um diretor que gosta de fazer seu público sonhar (e sonhar alto, sem medo de romper qualquer hipótese considerada impraticável). E com Jurassic Park ele atingiu em cheio seu objetivo frequente. Aqui, nos perguntamos se seria possível a convivência entre seres humanos e feras tão selvagens e brutais. Sim, a resposta parece óbvia.  É claro que não. E Spielberg deixa isso claro (mostrando que os 65 milhões de anos de evolução que separam as duas espécies devem ser respeitados). Mas ele sonhou. Nós sonhamos. E mesmo que imbuídos de medo ou mesmo de dúvidas, não podemos deixar de dizer: “sonhamos”.

Jurassic Park – EUA – 1993 – Direção: Steven Spielberg – Elenco: Sam Neill, Laura Dern, Richard Attenborough, Jeff Goldblum – 121 minGênero: Aventura

NOTA: 9,5 

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Top 10: Actress in a Leading Role

Setembro 20, 2009 at 10:15 pm (Ranking A Grande Arte, Top 10: Atriz)

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10. GRETA GARBO (A Dama das Camélias, 1937)

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9. ANNE BANCROFT (O Milagre de Anne Sullivan, 1962)

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8. JUDY GARLAND (Nasce Uma Estrela, 1954)

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7. GIULIETTA MASINA (Noites de Cabíria, 1957)

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6. KATHERINE HEPBURN (Núpcias de Escândalo, 1940)

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5. MERYL STREEP (A Escolha de Sofia, 1982)

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4. GLORIA SWANSON (O Crepúsculo dos Deuses, 1950)

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3. VIVIEN LEIGH (Uma Rua Chamada Pecado, 1951)

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2. BETTE DAVIS (A Malvada, 1950)

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1. ELIZABETH TAYLOR (Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, 1966)

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Os 10 Filmes Favoritos de Steven Jay Schneider

Setembro 18, 2009 at 1:21 pm (Nada a Ver)

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O site de notícias da Globo (G1) encomendou uma tarefa muito difícil à Steven Jay Schneider, o editor do ótimo livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. O site pediu que ele escolhesse apenas 10 que julgasse realmente essenciais na enorme lista (que é muito bem elaborada, por sinal). O resultado foi bastante polêmico, mas, claro, quem iria concordar 100% com uma lista tão pessoal?

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10. COMO ENLOUQUECER SEU CHEFE (Mike Judge, 1999)

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9. DESAFIO DO ALÉM (Robert Wise, 1963)

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8. LOUCA PAIXÃO (Paul Verhoeven, 1973)

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7. O SILÊNCIO DO LAGO (George Sluizer, 1988)

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6. TUBARÃO (Steven Spielberg, 1975)

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5. RASTROS DE ÓDIO (John Ford, 1956)

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4. O SILÊNCIO DOS INOCENTES (Jonathan Demme, 1991)

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3. E.T – O EXTRATERRESTRE (Steven Spielberg, 1982)

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2. UM CORPO QUE CAI (Alfred Hitchcock, 1958)

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1. O IMPÉRIO CONTRA ATACA (George Lucas, 1980)

E você? Quais são os 10 filmes que julga essenciais?

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