A Cor Púrpura

Novembro 13, 2009 at 1:38 pm (Filmes: Steven Spielberg, Tenho em casa)

Quando Quincy Jones decidiu transformar em filme o best-seller e vencedor do Prêmio Pulitzer, A Cor Púrpura, de Alice Walker, certamente não imaginava Steven Spielberg como o diretor ideal. Ele parecia o único branco entre uma equipe majoritariamente negra, mas nem por isso deixou de captar com delicadeza e competência um dos painéis mais ambiciosos sobre a influência da cultura negra sobre os EUA do século XX. Spielberg colheu algumas críticas (de um público acostumado a vê-lo em blockbusters), mas recebeu reconhecimento do Oscar com uma indicação ao prêmio de melhor direção do ano de 1985.

Algo que alimenta a curiosidade de muitos amantes do longa é o fato dele ter recebido 11 indicações - incluindo Melhor Filme – e sair de mãos vazias da cerimônia. Num ano dominado pelo também excepcional Entre Dois Amores, A Cor Púrpura não alçou maiores voos. Contando a história da menina Celie, uma negra que não é exatamente bonita, mas muito inteligente, o filme narra toda sua saga – desde os abusos sexuais que sofria do pai alcóolatra (e que a engravidou duas vezes, livrando-se das crianças logo em seguida) até o momento em que é obrigada a se casar com o bruto Mister (vivido por um ótimo Danny Glover). Celie é uma garota acostumada com perdas de todos os sentidos. Como se não bastasse ter filhos do próprio pai - e ainda vê-los sendo entregues à adoção -, após o matrimônio ela é forçada a se separar de sua irmã Nettie, uma garota mais bonita, porém igualmente inteligente e íntegra. Com o desenrolar dos anos, Celie vai convivendo com a saudade de seus familiares perdidos, enquanto tenta lidar com as agressões do esposo e com uma série de outros personagens que provocam drásticas mudanças em seu modo de encarar a vida.

A fase adulta de Celie é a parte mais fascinante de A Cor Púrpura, especialmente pela atuação formidável de Whoopi Goldberg, aqui em seu papel de estreia. Ela compõe a personagem de maneira exemplar, atentando para detalhes que fazem toda a diferença – como tapar o sorriso com as mãos a cada momento que se sente feliz ou mesmo envergonhada. Este trejeito é tão característico que por várias vezes ansiamos pelo seu sorriso. E são nas sequências em que Goldberg divide a tela com Shug Avery (vivida por Margareth Avery) que mais se tem o prazer do imenso e iluminado sorriso de Celie – um artigo de luxo dentro do filme, mas que ao ser utilizado simplesmente nos encanta. É difícil imaginar que uma mulher tão sofrida ainda encontra motivos para sorrir, mas a mensagem que Menno Meijes (o roteirista) quer passar é a de que “o paraíso é bem maior do que qualquer provação”. Não por acaso estas palavras são proferidas pela própria Celie a certa altura da película, mais exatamente quando sua nora, Sophia (interpretada por Oprah Winfrey) vem reclamar que apanhou do esposo, o obsequioso e vacilante Harpo (Willard E. Pugh). O roteirista e todas as atrizes citadas foram indicados ao Oscar, mas nenhum deles recebeu o prêmio - quando, na verdade, questionamos se a adaptação do livro de Alice Walker foi realmente inferior à da obra autobiográfica de Karen Blixen, A Fazenda Africana, que serviu de material para o roteiro de Entre Dois Amores. Questiona-se bastante, também, a derrota de Goldberg para Geraldine Page (em O Regresso para Bountifull), e principalmente, a de Oprah Winfrey (que mais tarde se tornaria uma das maiores apresentadoras da TV americana) para Anjelica Huston (em A Honra do Poderoso Prizzi).

Claro, o Oscar nem sempre é uma verdade absoluta. Talvez A Cor Púrpura merecesse sair com algum prêmio. Talvez esta derrota massiva, em todas as 11 categorias, tenha apenas reforçado a grande injustiça que muitos consideram ter sido cometida pelo Oscar. O fato é que o primeiro filme ”sério” de Steven Spielberg é uma fábula inesquecível. Todos os elementos dramáticos estão ali, mas o tom é por vezes jocoso (e este equilíbrio sem dúvida serviu para que o filme conquistasse tantos admiradores). Enfim, independente de qualquer outra comparação, A Cor Púrpura merece ser visto. Raras vezes o cinema abordou a raça negra com tanta intensidade e respeito – e aqui isto acontece em doses superlativas.

The Color Purple – EUA – 1985 – Direção: Steven Spielberg – Elenco: Whoopi Goldberg, Danny Glover, Oprah Winfrey – 154  min – Gênero: Drama

NOTA: 9,0 

9 Comentários

  1. Cleber Eldridge disse,

    Adoro! Demais, quem vê nem pensa que é o Spielberg (hahaha eu penso assim), o livro é maravilhoso!

  2. Jorge disse,

    Um belíssimo filme!!!

  3. Mayara Bastos disse,

    Belíssimo mesmo, e aqui, Spielberg “queima a língua” de alguns que o consideram o “rei” dos filmes com efeitos. Tomara que ele volte a fazer filmes como este. ;)

  4. Rafael Moreira disse,

    Nunca assisti esse clássico de Spielberg, Weiner, mas vontade não faltou. Nossa, quantos filmes dele eu não assisti? Preciso me atualizar neste aspecto. Abraço!

  5. Cris Rosa Negra disse,

    Olá,
    Eu adoro este blog e o acho único e aproveitei para parabenizá-los em meu blog. Amo cinema!
    http://perfumedarosanegra.blogspot.com/2009/11/obrigada-pelos-selos-blog-magico-e-blog.html
    Abraço,
    Cris Rosa Negra

  6. Wally disse,

    É um ótimo filme mesmo. Diferente dos outros de Spielberg e decididamente mais emocional. É mais melodrama. Só que sem o maniqueísmo e a artificialidade.

    Nota 8.5 [****]

  7. Ricardo Martins disse,

    Weiner, não acredito! Um post de A cor Púrpura!!!!!!
    Cresci assistindo a filmes da Whoopi Goldberg e conheci esse há 2 anos! Cara vou te confessar mas não conte a ninguém: Chorei boa parte desse filme, principalmente as surras dela e os abusos do pai. Mas o mais emocionante é o reencontro com a irmã no fim do filme!!!

    Acho o maior erro a Whoopi Goldberg não ter levado o OSCAR! Grande injustiça, para mim o mesmo erro de 2006 onde Felicity Huffman (transamérica) também não levou!

    Cara, pelo menos um Oscar era merecido! Para mim até o de Melhor Filme!

    Amo esse filme!!! E adorei sua crítica!
    Parabéns e Sucesso!!!!

    ABRAÇÃO

  8. O Cara da Locadora disse,

    Esse sem dúvida é um dos flmes mais, ou o mais, injustiçado do cinema mundial… Não que Oscar realmente queira dizer muita coisa para quem aprecia cinema, mas mostrou o conservadorismo da Academia de forma latente…

    Grande filme e grande texto…

  9. Robson Saldanha disse,

    Acho esse filme de uma sensibilidade fantástica…

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